Em Roma, aplausos e memória marcaram a participação do inesquecível capitão da Itália campeã do mundo de 1982, Dino Zoff, na cerimônia de entrega das Benemerenze FIGC — categorias Attività Giovanile Scolastica e Lega Nazionale Dilettanti. A presença do ícone ocorreu justamente no dia em que completou 84 anos, conferindo à solenidade um caráter simultaneamente festivo e reflexivo.
Dino Zoff escolheu celebrar o aniversário acompanhando a Sociedade Mariano durante a premiação pelos 100 anos de vida futebolística do clube do Friuli-Venezia Giulia. A ligação entre uma agremiação amadora e um nome que entrou para a história do futebol italiano — Zoff jogou na Marianese até os 14 anos — é, antes de tudo, a narrativa de um percurso que não se esquece de suas raízes. É a lembrança de como o percurso de um campeão pode conservar a memória dos espaços onde tudo começou.
Enquanto figura pública, Zoff simboliza não apenas conquistas esportivas, mas também um modelo de vínculo entre o futebol organizado e as comunidades locais. A cerimônia em Roma, promovida pela Federação Italiana de Futebol, reforçou essa ideia ao reconhecer clubes e iniciativas que mantêm viva a formação de base e a prática esportiva entre jovens.
O presidente da FIGC, Gabriele Gravina, dirigiu-se aos premiados com palavras que deslocam o olhar do resultado para a função social do esporte: ‘Hoje não falamos apenas de futebol — porque o reconhecimento que vocês vão receber fala de Comunidade com C maiúsculo. Todas as tardes, quando abrem os portões do campo, não estão organizando apenas um treino ou uma partida. Estão abrindo um espaço seguro, oferecendo uma alternativa séria e crível em uma sociedade sujeita a contínuas fibrilações, construindo relações.’
Gravina enfatizou que as sociedades desportivas amadoras e de base não são um elemento secundário do sistema esportivo nacional: ‘Não são um contorno; são a alma.’ Essa afirmação merece ser lida à luz da história mais ampla do esporte italiano, onde clubes de bairro e associações locais têm sido, por gerações, espaços de sociabilidade, educação e afirmação identitária.
Do ponto de vista cultural, a presença de Dino Zoff em um ato que celebra a Attività Giovanile Scolastica e a Lega Nazionale Dilettanti reforça uma ideia que atravessa o tempo: a formação do atleta e do cidadão se dá, em grande medida, nesses campos modestos, onde se ensina mais do que técnica — ensina-se disciplina, convívio e responsabilidade coletiva. Celebrar os 100 anos de um clube como o Mariano é, portanto, reconhecer um patrimônio coletivo.
Na confluência entre memória e compromisso social, o gesto de Zoff ao voltar a um palco de reconhecimento institucional traduz uma lição simples e firme: a grandeza esportiva não anula a dívida de memória; ao contrário, a confirma. Em um país que sempre leu o futebol como espelho de identidades regionais e de tensões sociais, atos como esse reforçam a ideia de que proteger e valorizar a base é proteger a própria história do esporte.






















