Em uma partida da 26ª rodada da Serie A, disputada no Via del Mare no sábado, 21 de fevereiro, um lance aos 52 minutos alterou o curso do confronto entre Lecce e Inter. O lateral esquerdo Dimarco acertou o pé direito e balançou as redes, mas o gol foi anulado após revisão do VAR. O episódio, além de influenciar o placar, revela como pequenas margens interpretativas continuam a moldar narrativas esportivas.
O desenvolvimento da jogada: aos 52, Bisseck acionou o passe longo para o movimento de ataque de Thuram. Thuram progrediu pela direita e cruzou para a área. No centro da área, houve um escorregão de Esposito, e a bola sobrou para Dimarco, que abriu o pé direito e venceu o goleiro Falcone. A comemoração inicial dos jogadores nerazzurri deu lugar a protestos dos jogadores do Lecce, que reclamaram de uma posição irregular no início da ação.
O árbitro Manganiello foi chamado pelo VAR para checar o lance. Após alguns segundos de análise, a decisão foi tomada: o gol foi anulado por impedimento de Thuram no momento do passe de Bisseck. As imagens mostraram que o atacante francês estava adiantado com a espádua, posicionamento que a regra interpreta como parte do corpo capaz de jogar a bola, tornando inválido o gol subsequente de Dimarco.
Do ponto de vista regulatório, o caso é emblemático. A interpretação de offside por parte da tecnologia — e sua aplicação em tempo real — continua a incitar debates legítimos: onde termina a precisão técnica e onde começa a frieza do retrospecto que corrige uma emoção coletiva, a celebração do gol? Para torcedores e analistas, a sensação é dupla: justiça técnica por um lado, frustração por outro. Em jogos de alta intensidade, decisões assim afetam ritmo, moral das equipes e, por vezes, a leitura tática dos minutos seguintes.
É importante lembrar que a anulação não questiona a qualidade do chute de Dimarco nem a capacidade do time de criar a jogada. A intervenção do VAR apenas aponta uma irregularidade no início da sequência. Ainda assim, o episódio no Via del Mare confirma que pequenos detalhes posicionais se tornaram centrais nas análises pós-jogo: a posição da espádua de um atacante ou o instante preciso do passe são elementos decisivos.
Como observador atento das interseções entre esporte, memória coletiva e administração do jogo, vejo nesse tipo de lance uma confirmação de duas tendências. Primeiro, a tecnificação irrevogável do futebol moderno, em que decisões humanas são auxiliadas — e às vezes substituídas — por dispositivos de precisão. Segundo, a permanência do componente emocional: embora a imagem técnico-jurídica seja clara, o impacto simbólico de um gol anulado permanece maior do que a soma dos pixels da revisão.
Em suma, o gol de Dimarco em Lecce-Inter foi corretamente anulado por impedimento de Thuram segundo as imagens e a interpretação do VAR, mas o episódio alimenta a discussão mais ampla sobre o equilíbrio entre justiça esportiva e a intensidade narrativa que define o futebol contemporâneo.
Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia






















