Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
O jogo entre Juventus e Como, disputado no Allianz Stadium em 21 de fevereiro, teve um protagonista involuntário: o goleiro Di Gregorio. Aos 11 minutos do primeiro tempo, o lateral adversário Vojvoda cortou para o pé esquerdo e arriscou de fora da área. A bola não parecia imparável, mas o desfecho foi exemplar da fragilidade que tem acompanhado o arqueiro bianconero: ao estender o braço direito, ele deixou a mão ceder e a bola escorregar lentamente para dentro do gol.
O erro, além de custar o 1 a 0, reacendeu memórias recentes — e incômodas — de outra falha, desta vez em San Siro contra o Inter, quando um toque equivocado de pé contribuiu para o autogolo de Cambiaso. A sequência de episódios abriu espaço para uma reação imediata e virulenta nas redes sociais. No X, os torcedores não se contiveram: mensagens como “Mandatelo via” e “Basta, basta. Cada partida um gol dado ao adversário” apareceram aos milhares, junto a pedidos para que Perin volte a ocupar a meta e que Spalletti ou a diretoria atuem no mercado.
É importante ler essa crise com mais calma do que a fúria dos tricolores online costuma permitir. O futebol, sobretudo em clubes com a dimensão institucional da Juventus, não é apenas uma soma de deficiências técnicas; é também um termômetro de expectativas e memórias coletivas. Um erro de goleiro reverbera de modo distinto num clube que historicamente baseou parte de sua identidade em segurança defensiva e eficiência tática. Nesse sentido, a repetição de falhas por parte de um jogador jovem, contratado para ser solução, ativa debates sobre recrutamento, rotação e gestão psicológica do elenco.
Do ponto de vista esportivo imediato, a alternativa interna mais citada é a volta de Perin à titularidade até que a situação se estabilize. Do ponto de vista estrutural, porém, a questão é mais ampla: como gerir a confiança de um profissional que falha em momentos-chave sem criar uma instabilidade maior no grupo? A resposta passa por escolhas do treinador, pela clareza da diretoria em relação ao projeto de meta e por um acompanhamento técnico e mental que, em clubes grandes, costuma ser subestimado até se tornar urgente.
Nas próximas semanas estará em evidência a capacidade da Juventus de tomar decisões que equilibrem responsabilidade e contexto, evitando tanto a punição sumária quanto a permissividade que alimenta a repetição do erro. Para os torcedores, a frustração é compreensível; para a instituição, a tarefa é transformar o desconforto em diagnóstico preciso e intervenção eficaz — seja com trabalho interno ou no mercado.
O episódio no Allianz Stadium é, portanto, menos uma anedota isolada do que um sintoma: sobre carga, sobre processos de formação e recuperação, e sobre a paciência (cada vez mais curta) das torcidas nos grandes palcos europeus.






















