Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A história de Davide Ghiotto não se reduz a tempos e medalhas. Nascido em Altavilla Vicentina, o patinador construiu uma carreira que é simultaneamente atlética e intelectual — razão pela qual a imprensa italiana frequentemente o chama de “filósofo do gelo”. Introduzido ao mundo sobre rodas e depois convertido ao gelo, o seu compromisso com a patinação de velocidade tem raízes afetivas e simbólicas: como a companheira de equipe Francesca Lollobrigida, Ghiotto decidiu perseguir o esporte depois de assistir às Olimpíadas de Torino 2006.
Formado em filosofia, com uma tese sobre “ética e suicídio”, ele mesmo define a disciplina: “É odiada apenas porque não é compreendida. Eu tive sorte, sempre a observei com atenção.” Os nomes que o influenciam — Schopenhauer e Nietzsche — contam tanto sobre sua formação intelectual quanto sobre a forma como encara a competição: com uma mistura de análise crítica e reflexão profunda sobre limites e sentido.
No plano esportivo, Ghiotto é um ponto de referência para a Itália. Três vezes campeão mundial, medalhista de bronze olímpico em Pequim 2022 nos 10.000 metros, ele também detém o recorde de 10.000 metros com 12:25.692, marca feita na Copa do Mundo em Calgary, em janeiro de 2025. O ano pré-olímpico foi particularmente fértil: nos Mundiais de Hamar ele conquistou o terceiro ouro consecutivo nos 10.000 metros, somando ainda a prata no perseguição por equipes e ficando a um passo do pódio nos 5.000 metros.
Em janeiro de 2026, Ghiotto reafirmou sua regularidade: bronze nos 5.000 metros nos Campeonatos Europeus e novo título no perseguição por equipes. A consistência em distâncias longas o coloca como uma peça-chave da delegação italiana em Milano-Cortina, onde chega para a terceira participação olímpica — após PyeongChang 2018 e Pequim 2022.
Atleta das Fiamme Gialle, pai de dois filhos e com 32 anos completados em dezembro, Ghiotto representa um tipo de figura que pouco casa com estereótipos do esporte contemporâneo: a de um competidor que articula vida pública e pensamento privado, desempenho e reflexão. Em uma época em que o esporte é frequentemente reduzido a métricas e veículos de espetáculo, sua presença relembra que as atividades competitivas são também campos de formação identitária e memória coletiva.
Observar Ghiotto é, portanto, além de acompanhar um favorito para provas de longa distância, entender como a patinação italiana se reconstrói em torno de atores que dialogam com a tradição, a técnica e a própria cultura do país. A sua história — desde os patins com rodinhas até o pódio olímpico e o recorde mundial — é um pequeno inventário da modernidade esportiva italiana: feita de instituições, clubes como as Fiamme Gialle, escolhas pessoais e, sobretudo, de um sopro de criatividade intelectual que transforma o gelo em espaço de sentido.
Para quem acompanha Milano-Cortina 2026, Davide Ghiotto não é apenas um nome na lista de largada: é um símbolo de como o esporte italiano pode, em pleno século XXI, continuar a ser narrado como força social, cultural e afetiva.






















