Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Algumas centenas de pessoas realizaram uma manifestação no bairro de San Siro, em Milão, pouco antes do início da cerimônia de abertura das Olimpíadas Milano-Cortina. O ato, convocado por coletivos sociais e movimentos críticos ao modelo de megaeventos, teve caráter simbólico: uma contre-fiaccolata — uma espécie de contracortejo com tochas — que buscou interromper a narrativa oficial do evento.
“As Olimpíadas são um roubo de recursos dos de baixo para os de cima” — afirmou um dos organizadores, sintetizando a reclamação mais recorrente entre os presentes. Para os manifestantes, a festa construída para poucos revela desequilíbrios estruturais: investimentos públicos que, segundo eles, privilegiaram obras e interesses privados em detrimento de políticas sociais, habitação e serviços básicos.
Os organizadores anunciaram ainda a reativação de um cortejo nacional previsto para o sábado, a partir das 15h, com concentração na Piazza Medaglie d’Oro. A convocação quer transformar o protesto local em uma voz articulada contra o que consideram a mercantilização do esporte e da cidade.
O episódio em San Siro ocorre num momento político sensível: a Corte di Cassazione reformulou o quesito de um eventual referendo — uma intervenção de peso no debate público —, mas, na avaliação dos dissidentes, a linha governamental não se alterou. A percepção de continuidade nas decisões oficiais alimenta a sensação de que canais institucionais são insuficientes para tratar dos impactos sociais das Olimpíadas.
Do ponto de vista urbano e cultural, a escolha de San Siro como cenário desta oposição não é casual. O estádio e seu entorno são símbolos de identidade popular e, ao mesmo tempo, terreno recorrente de disputas por projeto urbano: entre a memória coletiva e os processos de valorização imobiliária, entre usos públicos e interesses privados. A manifestação, portanto, encarna uma disputa de narrativas sobre quem deve se beneficiar de grandes investimentos e como a cidade se projeta para o futuro.
É preciso contextualizar essa resistência. Nos últimos anos, projetos olímpicos em várias cidades europeias e além têm suscitando críticas sobre o custo-benefício social e econômico. A literatura crítica sobre megaeventos demonstra padrões recorrentes: promessas de legado que nem sempre se concretizam para as populações locais; deslocamentos residenciais; contratos e obras que favorecem conglomerados específicos. Em Itália, essas tensões reverberam em tradições de mobilização cívica e em uma memória coletiva sensível a desigualdades regionais e urbanas.
Como analista atento às tramas que unem esporte e sociedade, considero relevante observar não só o conflito imediato, mas as consequências institucionais e simbólicas. Uma cerimônia de abertura projeta um país na narrativa global; a contramanifestação revela, por outro lado, fendas internas que não podem ser neutralizadas por imagens televisivas. A fotografia política das Milano-Cortina incluirá, portanto, não apenas atletas e pódios, mas também estas formas de dissenso.
Para além do gesto em San Siro, resta a pergunta estratégica: como incorporar vozes críticas nas decisões sobre grandes eventos, de modo que projetos sejam efetivamente coesos com políticas públicas e com a justiça social? A resposta passa por transparência, controle cidadão e uma reavaliação do que entendemos por legado. O cortejo de sábado promete manter vivo esse debate nas ruas de Milão.






















