Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em uma intervenção que cruzou centros de interesse aparentemente distantes, a conferência de imprensa do Festival de Sanremo ganhou um recorte futebolístico quando um jornalista suíço perguntou a Carlo Conti se a impressionante reação da Juventus diante do Galatasaray, pela Champions League, teria “roubado” audiência da segunda serata do evento musical.
Conti respondeu com leveza e ironia — “Che squadra?” — um comentário que, mais do que uma avaliação técnica, serviu como gesto de distanciamento cortes e de quem gerencia a narrativa de um festival que, historicamente, é medidor sensível do humor e da atenção do público italiano. O episódio revela algo simples, mas significativo: na Itália contemporânea, música e esporte disputam os mesmos palcos de atenção coletiva.
O apresentador, contudo, não se limitou à anedota. Ao abordar o momento futebolístico de sua cidade, Conti comentou o compromisso do Fiorentina na volta do playoff da Conference League. “Aguardarei com interesse, até agradeço quem mudou o horário para as 18h45”, disse o diretor artístico, lembrando que a alteração facilita a franja de espectadores que acompanham tanto a televisão quanto os eventos esportivos ao vivo.
Com a mesma sobriedade que marca sua carreira, Conti manifestou uma preocupação que vai além do resultado esportivo imediato: a preservação da história e da tradição que clubes como a Fiorentina representam para suas comunidades. “Espero que passem a fase e que toda a nova direção saiba recolocar as coisas no lugar, como já está fazendo junto com a grande squadra che è, con la sua grande tradizione”, afirmou, antes de completar com um tom que combinou carinho e alerta: “Non vorrei festeggiare il centenario della Fiorentina con la retrocessione, non ci posso neanche pensare”.
O episódio ilustra duas dinâmicas que merecem observação analítica: primeiro, a crescente interdependência entre espetáculos televisivos e grandes eventos esportivos na formação da atenção pública; segundo, o papel dos apresentadores e formadores de opinião como mediadores de memória coletiva. Quando um condutor histórico de um festival nacional comenta sobre o risco de um clube centenário cair de divisão, não é apenas esporte — é patrimonialização do sentimento local.
Para além do comentário bem-humorado sobre a Juventus, fica a leitura mais densa: o futebol permanece como instância simultaneamente competitiva, identitária e midiática, apta a alterar a geografia da audiência em questão de minutos. E Sanremo, com sua aura ritual, segue sendo um termômetro de como a Itália equilibra tradições culturais com as paixões do presente.
Em resumo: a pergunta sobre “roubo de share” foi resposta bem-humorada; a preocupação com o futuro da Fiorentina foi séria. Entre música e futebol, o comentário de Conti revelou o que sempre esteve claro — a intervenção do esporte nas narrativas públicas é tanto imediata quanto simbólica.






















