Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
À véspera do confronto decisivo na Champions League, a atmosfera em San Siro espelhava uma tensão que vai além das circunstâncias táticas: reflete o embate entre tradições consolidadas e a emergência de projetos menores, porém bem estruturados. Foi nesse contexto que Cristian Chivu, técnico do Inter, teve um áspero bate‑boca com um jornalista norueguês durante a conferência de imprensa de segunda‑feira, 23 de fevereiro.
O repórter perguntou se não seria “uma vergonha” para o clube milanês ser eliminado por uma equipe considerada pequena, o Bodo/Glimt. A reação de Chivu foi imediata: “Você diz isso e ainda ri? Parabéns“, respondeu o treinador, visivelmente irritado. Chivu destacou que, no futebol, não existe motivo para ridicularizar o adversário. “No futebol não há nada de vergonhoso, é preciso respeitar o adversário. Visto que o senhor não nos respeita dizendo que seria uma vergonha para nós. Nós, ao contrário, respeitamos o Bodo, como eles já mostraram contra outras grandes”, afirmou.
O técnico italiano reforçou a ideia de reconhecimento pelo trabalho do clube norueguês: “Nós respeitamos nossos adversários e até fizemos elogios ao Bodo, que demonstrou ter um projeto saudável. Vergonha nós não temos; tivemos a elegância de elogiar também após a partida de ida”. Chivu precisava, com razão, deslocar a narrativa do insulto para o campo das razões esportivas.
No aspecto competitivo, o cenário é objetivo e impiedoso: após a derrota por 3 a 1 no jogo de ida, o Inter precisa de uma vitória por três gols de diferença para avançar diretamente, ou vencer por dois gols sem sofrer para forçar a prorrogação — e, se necessário, os pênaltis.
Como analista, considero o episódio sintomático de um problema recorrente no futebol europeu: a tendência de subestimar projetos fora dos centros tradicionais do poder. O choque não é apenas esportivo, é simbólico. Clubes como o Bodo/Glimt desafiam hierarquias com planejamento, formação e identidade próprios, forçando clubes maiores a reavaliar arquiteturas de scouting e preparação física.
Chivu, mais do que um técnico em situação delicada, aparece como um guardião da reputação do clube — não por vaidade, mas porque a autoridade de instituições como o Inter também se alimenta do respeito institucional e da seriedade no trato com o adversário. O incidente na conferência, portanto, revela tanto a pressão que recai sobre quem dirige um grande clube quanto a necessidade de proteger a narrativa esportiva do sensacionalismo.
Na noite da partida, a pergunta que permanece é menos retórica: o Inter encontrará em campo a resposta técnica que transformará a ira do treinador em foco coletivo, ou a subestimação se consumará em eliminação? O futebol, como sempre, dirá.






















