Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — O triunfo do Inter sobre a Juventus por 3-2, válido pela 25ª rodada da Serie A, ficou marcado por uma decisão que alterou profundamente a dinâmica do duelo: a espulsão de Kalulu. Aos 42 minutos do primeiro tempo, o zagueiro bianconero recebeu o vermelho após dupla advertência, ambas por faltas acumuladas, sendo a segunda aplicada por um suposto contato com Bastoni.
As imagens televisivas, contudo, suscitaram dúvidas. Em várias repetições parece não haver contato claro entre os jogadores; Bastoni cai de forma elaborada no momento em que o adversário se aproxima, alimentando acusações de simulação e críticas à arbitragem. Quase unânime foi a reprovação da atuação do árbitro La Penna nas redes sociais e entre analistas — exceto por quem dirigia o Inter naquele dia: Cristian Chivu.
Em entrevista concedida no pós-jogo, Chivu assumiu uma posição de defesa da decisão: “Para mim é um toque leve, mas é sempre um toque”, afirmou, ressaltando que o lance pode ser interpretado pelo árbitro como infração passível de cartão. O treinador temperou a justificativa com um conselho prático: “Quando sofremos faltas leves, ensino meus jogadores a não complicar o trabalho do juiz. É uma decisão dele. Kalulu tem experiência e sabe que, em certas circunstâncias, as mãos precisam ficar no bolso”.
Chivu completou observando a delicadeza tática da situação: com um cartão amarelo já anotado, tocar o adversário em um lance de antecipação, sobretudo quando a transição pode gerar um contra-ataque em campo aberto, é um risco desnecessário. A defesa do treinador tem duas camadas: a leitura do fato como passível de interpretação disciplinar e a exigência de disciplina comportamental dos atletas.
Do ponto de vista esportivo e cultural, o episódio ilumina temas recorrentes na Itália: a tensão entre jogo físico e teatralidade, as dificuldades da arbitragem diante de repetições em câmera lenta, e a maneira como um cartão pode reescrever narrativas locais — principalmente num derby d’Italia, partida que acentua rivalidades históricas e expectativas regionais. A expulsão não só deixou a Juventus reduzida numericamente; remodelou escolhas táticas, prioridades defensivas e o desenho do duelo até o apito final.
É razoável questionar procedimentos e pedir mais precisão; é também legítimo reconhecer que a autoridade do árbitro, em campo, opera sob imprevisibilidade. A posição de Chivu revela uma visão pragmática: dentro de um ecossistema onde decisões humanas são inevitáveis, a responsabilidade pelos resultados passa também pela disciplina dos jogadores.
Em última análise, o caso Kalulu–La Penna será mais um capítulo na longa história dos debates sobre arbitragem na Itália — e na memória coletiva do confronto Inter-Juve: um exemplo de como um lance isolado pode reverberar muito além dos 90 minutos.






















