Por Antonio Marchesini, Espresso Italia — Em entrevista franca ao Il Messaggero, Antonio Cassano voltou a exercer sua vocação provocadora, mas com um viés analítico que interessa a quem observa o futebol como reflexo social e institucional. Entre críticas diretas a jogadores, avaliações sobre treinadores e reflexões sobre a contemporaneidade digital, Cassano desenha um retrato contundente do atual momento do futebol italiano.
Ao comentar o universo das redes sociais, Cassano sublinha um efeito social mais amplo: as plataformas “desintegraram o mundo”, dispersando verdades e multiplicando agressões. “Tem quem dite a sua, quem ofende, as falsidades — Sinner está certo: a vida real não é nas redes”, disse. No plano pessoal, reafirmou o papel estabilizador da família: a esposa e os filhos são, para ele, o eixo de uma maturidade encontrada em Gênova.
No campo das análises técnicas, Cassano não poupa elogios nem críticas. Defende Gasperini como treinador que o “faz enlouquecer” em termos positivos, mas aponta responsabilidade da direção por não ter montado o elenco adequado: “Não vejo nem 1% da Atalanta dele. Não lhe deram os jogadores certos”.
Sobre a Roma, a avaliação é seca e propositiva. Cassano sugere uma revolução no plantel: manda embora jogadores como Mancini, Cristante, Dybala e Pellegrini, e pede sangue novo, “gente jovem, forte, não esses roteiristas que fazem cinema beijando a camisa”. Há um apelo por mudança de clima: “Fora ar poluído, dentro ar puro”. E defende um papel consultivo e respeitado para Francesco Totti, comparando-o a Zanetti no Inter — “que diga a sua e seja ouvido, não fique como figura decorativa”.
Na discussão sobre a seleção, Cassano reduz o rol de certezas: “Gattuso nos levará ao Mundial, mas a Nazionale é fraca. Temos um único campeão: Donnarumma”. Na mesma linha, questiona a capacidade de jogadores como Barella e Tonali de emergirem em contextos de maior exigência: “Tonali, na Premier, não pegaria a bola; corre demais, talvez devesse fazer atletismo. Tonali e Barella são escassos. Barella corria, agora nem isso — precisamos de qualidade e ideia”.
Cassano aponta nomes que o atraem entre os jovens: Sucic e Vergara, e reserva defesa a Bastoni, cujo caso recente motivou debates: “A geração da Juve deveria ser suspensa a cada cinco minutos”, ironizou, em defesa de alguns valores e uma certa impunidade midiática que, para ele, distorce juízos.
Um recado também para o passado recente: sobre Allegri no Milan, Cassano afirma que o treinador venceu porque o grupo, por vezes, não seguia estritamente suas ordens — uma leitura da relação entre autoridade técnica e cultura de vestiário que ilumina como decisões coletivas podem contrariar instruções e, ainda assim, produzir resultados.
Ao final, entre a crônica pessoal e o diagnóstico coletivo, Cassano retorna à sua cidade — “volto a Bari velha depois de 16 anos” — e reafirma a mistura de nostalgia e criticismo que o caracteriza: um olhar que não se limita ao placar, mas busca entender estruturas, lideranças e a cultura do espetáculo esportivo na Itália.






















