Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A edição mais recente de Processo al 90°, programa da Rai Due, registrou um pico de audiência motivado pelo chamado caso Bastoni — ao todo 462 mil espectadores e 8,70% de share. Os números refletem uma combinação entre a atual controvérsia disciplinar em torno do zagueiro da Inter e a capacidade dos debates televisivos de transformar incidentes de campo em narrativas mais amplas sobre memória esportiva e justiça dentro do futebol italiano.
O motivo imediato do interesse é claro: a imagem de Alessandro Bastoni acusada de simulação que resultou no segundo cartão amarelo e na expulsão de Pierre Kalulu em Inter-Juventus, partida válida pela 25ª rodada da Serie A, encerrada em 3-2 para os nerazzurri. Esse lance reabriu discussões antigas sobre arbitragem, integridade competitiva e como decisões isoladas no gramado reverberam sobre a percepção pública de campeonatos.
Mais relevante, do ponto de vista sócio-histórico, foi o desfecho da bancada do programa: o jornalista Massimo Giletti, conhecido público e profissionalmente por suas posições e por sua identificação com a torcida juventina, envolveu-se em acalorada discussão com o interista Gian Luca Rossi. A troca de acusações rapidamente escalou para uma afirmação inflamável de Giletti sobre a temporada polêmica do campeonato da Inter, que ele descreveu como um título marcado pela “prescrição“. Em estúdio, Giletti ainda afirmou que, segundo sua leitura das interceptações, o sistema do clube nerazzurro teria praticado condutas até mesmo superiores em gravidade às atribuídas a Luciano Moggi durante o episódio conhecido como Calciopoli.
O momento viralizou nas redes: Giletti, após insistir que a verdade das gravações é inquestionável, encerrou seu posicionamento com um “arrivederci” e deixou o estúdio. A tentativa de mediação do apresentador Marco Mazzocchi — que pediu calma e buscou reconduzir o debate — não conseguiu reverter a saída. O episódio tornou-se instantaneamente material para comentários, memes e reflexões sobre os limites do confronto televisivo ao vivo.
Do ponto de vista analítico, a situação expõe duas dimensões que atravessam o futebol italiano. Primeiro, a persistente capacidade de episódios de campo — sejam eles lances polêmicos, decisões disciplinares ou sentenças judiciais — de reabrir feridas e reativar narrativas históricas. Segundo, a televisão como espaço público de contestação: o estúdio vira tribunal simbólico, no qual lembranças de processos passados, como o Calciopoli, são invocadas para estruturar argumentos e atribuir legitimidade ou ilegitimidade a conquistas recentes.
Para além do calor do momento, cabe uma observação mais medida: colocar episódios recentes à luz de investigações passadas exige cautela metodológica. A imprensa e os comentaristas têm papel central em contextualizar provas, cronologias e decisões jurídicas, evitando confundir indignação retórica com conclusão probatória. Ainda assim, o poder simbólico de declarações públicas — como as de Giletti — molda a percepção coletiva e pode acelerar agendas investigativas ou políticas.
Em síntese, a audiência elevada do Processo al 90° confirma que o futebol italiano segue sendo um campo em que memória, poder e espetáculo se entrelaçam. O episódio com Massimo Giletti é menos um caso isolado de confrontação televisiva do que um sintoma: a velha discussão sobre justiça esportiva permanece viva, e programas ao vivo continuam a ser palcos preferenciais para essa disputa.
Nota: os dados de audiência e os fatos do jogo citados nesta matéria foram reportados pelo episódio em questão; as declarações atribuídas às partes refletem o registrado na transmissão.






















