O episódio envolvendo Bastoni e a expulsão de Kalulu em Inter-Juve ultrapassou o campo e instalou-se no debate público: a política italiana tomou posição sobre um lance que reabre discussões mais amplas sobre arbitragem, fair play e o lugar do futebol na vida coletiva.
No centro da controvérsia está a segunda cartolina amarela aplicada a Kalulu, por uma simulação atribuída a Alessandro Bastoni. O incidente, já discutido nos canais desportivos, ganhou contornos institucionais quando nomes do Parlamento e da vida pública se envolveram, muitos deles assumidamente ligados a clubes e identidades regionais.
O presidente do Senado, Ignazio La Russa, declarado torcedor da Inter, tentou contextualizar o lance e quase absolver o defensor nerazzurro. Em entrevista à Telelombardia, La Russa afirmou que, diante de uma história de episódios controversos, “roubar na casa de quem rouba não é tão grave” — uma expressão que mistura defesa do clube e justificativa emocional, comum entre dirigentes e torcedores quando uma decisão é percebida como compensatória. La Russa reforçou a sensação de ter sido prejudicado em jogos anteriores e relativizou o episódio na avaliação coletiva da partida.
Do outro lado do espectro político, o ex-primeiro-ministro e ex-secretário do Partido Democrático, Enrico Letta, seguiu linha mais sancionadora: “Bastoni não deve ser convocado na Seleção”, escreveu em sua conta no X, criticando ainda a comemoração que se seguiu ao cartão vermelho. Letta, torcedor do Milan, expressou preocupação com o exemplo que jogadores de alto perfil oferecem em campo.
O deputado Luigi Marattin, conhecido adepto da Juventus, fez eco à nota do clube bianconero e concentrou as críticas na qualidade da arbitragem. Em publicação no X citou a mensagem da Juventus que classificou o espetáculo como “imbarazzante” e questionou se o nível dos árbitros é compatível com a Série A. A ênfase de Marattin voltava-se menos ao gesto isolado e mais à infraestrutura da arbitragem e à sua adequação ao principal campeonato nacional.
No Parlamento Europeu, o deputado Sandro Gozi ironizou em tom de provocação, associando a arbitragem e a entidade de arbitragem àquilo que chamou de ironicamente um “Prêmio Fair Play Bastoni”. Mensagens como essa mostram como um lance de campo pode ser apropriado por discursos que vão do humor ácido à crítica institucional.
O caso expõe uma dimensão recorrente do futebol italiano: a capacidade do jogo em articular memórias de afrontas, ressentimentos regionais e representações públicas. Não se trata apenas de decidir se um gesto foi jogo ou teatro; trata-se de como instituições políticas usam o futebol para comunicar lealdades, lançar farpas e, por vezes, intervir na gestão simbólica do esporte.
Entre as vozes mais técnicas, o ex-jogador e comentarista Cristian Chivu entrou em defesa de Bastoni, enquanto vozes contrárias pedem punições exemplares ou reflexões sobre a ética esportiva. Fora das estreitas fronteiras do estádio, o episódio serve como termômetro: revela como o futebol continua sendo uma arena pública onde se confrontam narrativas sobre justiça, memória e poder.
Mais do que a leitura de um lance — simulação, antijogo, jogo psicológico —, cabe perguntar que precedentes esse embate entre clubes, torcida, imprensa, árbitros e políticos cria para o futuro do espetáculo. Se a decisão esportiva já foi suficiente para polarizar milhares nas redes, seu trânsito até o Parlamento sublinha o lugar central do futebol na vida política e cultural italiana.
Para leitores que buscam perspectiva: acompanhar as repercussões institucionais desse episódio é observar, em microcosmo, como o esporte modela e é modelado por dinâmicas sociais maiores.






















