Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Nos quartos de final da Coppa Italia entre Bologna e Lazio, disputada no Renato Dall’Ara, um lance aos olhos de muitos resumiu as tensões contemporâneas sobre arbitragem e uso do vídeo: a entrada de Ferguson sobre Dele Bashiru que suscitou pedidos de expulsão do treinador Maurizio Sarri.
Ao redor do minuto 27, quando a partida ainda buscava um ritmo definido, o nigeriano Dele Bashiru foi lançado em profundidade e parecia em condição vantajosa rumo ao gol defendido por Skorupski. Na tentativa de retomar a ação, o defensor escocês Ferguson segurou a camisa do adversário e o desequilibrou, deixando-o caído. No banco da Lazio, Sarri e os jogadores reagiram prontamente, pedindo a expulsão direta do defensor do Bologna.
O árbitro Chiffi, posicionado distante do lance, inicialmente deixou seguir. A reação de protesto da Lazio levou o juiz a consultar o VAR, que revisou a jogada no monitor. A reanálise foi breve: os responsáveis pela revisão concluíram que o contato não configurava um erro claro e óbvio de arbitragem que justificasse a reversão da decisão de campo. Assim, manteve-se a falta sem cartão vermelho.
Do ponto de vista factual, o lance foi simples: um atacante lançado, um defensor que impede a progressão por meio de uma contenção pela camisa. A discussão que se segue, porém, é complexa e atravessa critérios técnicos, interpretação das regras e percepção pública sobre a aplicação do VAR.
Como analista atento às estruturas que regem o futebol italiano, vale lembrar que decisões desse tipo reverberam além do placar momentâneo. A introdução do VAR prometeu reduzir erros claros, mas instaurou um novo tipo de litígio: o do critério. O que para alguns é falta passível de expulsão, para outros é infração de menor intensidade, sancionável com um cartão amarelo ou apenas com a interrupção do jogo. Essa oscilação fragiliza a percepção de consistência e alimenta narrativas de injustiça, sobretudo em jogos eliminatórios como a Coppa Italia.
Além disso, o episódio remete a uma tradição italiana de debates regulatórios que envolve federações, árbitros e clubes: decisões centrais, tomadas em segundos, acabam por influir em memória coletiva e confiança institucional. Para torcedores e treinadores — e neste caso para Sarri — o pedido de vermelho não se limita a um delírio emotivo: é uma exigência por clareza normativa e aplicação coerente das leis do jogo.
O resultado esportivo do confronto e possíveis desdobramentos disciplinares não foram alterados pela revisão do VAR naquele momento. Resta, porém, a marca do lance como mais um exemplo de como tecnologias e interpretações continuam a modelar o futebol contemporâneo. Em dias decisivos, a sensação de equilíbrio entre justiça e erro é tanto técnica quanto simbólica — e episódios como o de Ferguson e Dele Bashiru alimentam essa reflexão.





















