Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
Em uma crítica direta e sem rodeios ao atual presidente da entidade máxima do futebol mundial, Joseph Blatter afirmou, em entrevista ao semanal alemão Sport Bild, que a FIFA hoje estaria reduzida à figura singular de Gianni Infantino. “O que é a FIFA hoje? É composta apenas pelo seu presidente, Infantino. A FIFA é uma ditadura“, afirmou Blatter, lembrando que o Conselho da FIFA — com quase 40 membros — teria sido esvaziado de voz e influência.
Blatter, que comandou a FIFA até 2015, utilizou uma imagem histórica para descrever o estilo de governo do dirigente suíço-italiano: “Governa como um Re Sole“, uma referência a Luís XIV da França, símbolo clássico da monarquia absoluta. O ex-presidente também comentou um episódio curioso: disse ter ouvido que a nova direção da entidade não deseja ser saudada quando se apresenta na sede — um sinal, segundo ele, de isolamento crescente.
Além das críticas internas à governança, Blatter voltou-se contra a relação de Infantino com o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Certo que Trump fará um espetáculo, ele já está fazendo. Para isso, precisa do seu novo amigo, o presidente da FIFA, Gianni Infantino. Mesmo que o termo ‘cúmplice’ seja mais apropriado do que ‘amigo'”, disse Blatter, questionando ainda a ideia de conceder a Trump um eventual “Prêmio da Paz” — um gesto que chamou de incompreensível e que, na avaliação do ex-presidente, teria motivações de aproximação política.
Contexto e implicações
A declaração de Blatter não pode ser dissociada de sua própria história: dirigente de longa data e figura central até 2015, ele conserva autoridade simbólica, mesmo após os escândalos que abalaram a instituição e levaram a uma rigorosa revisão de práticas internas. Ainda assim, o ataque direto a Infantino sinaliza uma disputa mais ampla sobre o modelo de liderança na FIFA — entre uma direção centralizadora, que projeta agir com rapidez e controle, e modelos colegiados que defendem maior participação dos membros do Conselho.
Do ponto de vista institucional, as palavras de Blatter levantam questões relevantes: como equilibrar eficiência executiva e mecanismos de controle? Até que ponto a imagem de um presidente forte ajuda a consolidar acordos comerciais e ampliar competições, e quando ela passa a fragilizar a legitimidade da governança? Essas perguntas são essenciais para compreender não apenas a gestão da FIFA, mas o papel do futebol como instituição de poder global.
Independentemente das críticas pessoais, o futebol mundial segue um processo de adaptação — entre interesses comerciais, pressões políticas e o crescente escrutínio público. A fala de Blatter reacende o debate sobre transparência, distribuição de autoridade e os limites do personalismo dentro de uma organização que trata de paixões coletivas e de interesses econômicos multimilionários.
Em suma, a acusação de que a FIFA estaria funcionando como uma “ditadura” é um alerta político e cultural: não apenas uma crítica pessoal a Infantino, mas um convite a repensar como o futebol global se organiza e quem faz as regras no campo e fora dele.






















