Na geografia simbólica dos Jogos de Milano Cortina, onde cidades, tradições e identidades se cruzam sob a bandeira olímpica, sobressai uma figura que traduz essa complexidade em movimento: o francês de 38 anos Benoit Richaud. Presente na Ice Skating Arena como técnico e coreógrafo, Richaud acompanha 16 atletas representando 13 federações diferentes, um retrato prático das redes transnacionais que hoje definem o pattinaggio artistico (patinação artística).
Durante a final por equipes, o gesto foi tão simbólico quanto prático: em menos de quinze minutos Richaud foi visto vestindo a jaqueta da Geórgia, em apoio a Nika Egadze, e pouco depois a do Canadá para Stephen Gogolev. O artifício — ele mesmo admitido à BBC — consiste em guardar peças no armário dos atletas ou receber ajuda rápida dos técnicos locais. O episódio ilustra duas realidades do esporte moderno: a mobilidade dos técnicos e a natureza personalizada do trabalho artístico sobre o gelo, mesmo em uma competição onde cada atleta compete por uma única nação.
Também é de Richaud a coreografia inspirada nos ‘Minions’ com a qual o espanhol Tomas-Llorenc Guarino Sabate se apresentou, vestido em um traje amarelo e azul que evocava as criaturas da animação. A proposta, que mesclou trilhas sonoras da série, chegou à competição apesar de dúvidas sobre direitos autorais — um aspecto prático que muitas vezes acompanha criações que transitam entre cultura pop e espetáculo esportivo.
Formado como atleta em Avignon, Richaud teve destaque competitivo ao alcançar o terceiro lugar no Mundial Júnior de 2008 em dupla com a canadense Terry Findlay. No entanto, sua projeção internacional consolidou-se como treinador e coreógrafo: eleito Melhor Coreógrafo nos ISU Skating Awards de 2024 e novamente indicado no ano seguinte, Richaud tornou-se referência por uma estética que recorre ao cinema e à pintura para estruturar programas que sejam, ao mesmo tempo, técnica e narrativa.
O modelo de trabalho que ele representa é significativo. No pattinaggio artistico, ao contrário de muitas modalidades coletivas, predomina a relação íntima entre atleta e técnico. O regulamento olímpico permite que um mesmo treinador acompanhe competidores de diferentes países, o que cria uma cena plural nas bordas do gelo: técnicos como Richaud transitando entre bandeiras, mantendo a coerência artística de seus atletas. Dessa forma, as pistas se tornam vitrines de estéticas que já não cabem em fronteiras únicas.
Sobre o impacto emocional desse papel, Richaud confesou: às vezes sente o ‘battito del cuore’ dos atletas enquanto competem. “Da un punto di vista emotivo è molto dura”, disse, resumindo a intensidade de acompanhar performances em que se investe parte da própria identidade criativa. O comentário revela o duplo papel do coreógrafo contemporâneo — autor de imagens e guardião do estado psicológico do atleta.
Mais do que episódios de bastidor, a presença de Richaud em Milano Cortina é uma lente para entender como o esporte contemporâneo reorganiza lealdades e práticas. Técnicos que vestem jaquetas alheias simbolizam a fluidez das conexões profissionais; coreografias que pesquisam o cinema e a cultura popular mostram um patamar de sofisticação onde a patinação compete também como produção cultural. Em suma, Richaud atua como um agente de síntese: une técnica, história e representação numa arena em que cada programa é, também, um pequeno inventário de significados coletivos.




















