Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia.
O episódio que marcou Juventus-Inter deixou rastros além do resultado: a expulsão de Pierre Kalulu — após a queda teatral de Alessandro Bastoni — foi amplamente discutida pela imprensa internacional e reacendeu o debate sobre protocolos de arbitragem e a cultura da simulação no futebol.
Aos 42 minutos do segundo tempo, com a partida ainda tensa e a Inter liderando por 3-2, Kalulu, já amarelado, teve um confronto com Bastoni enquanto o zagueiro juventino recuperava a bola para iniciar um contra-ataque. As imagens mostram um contato mínimo — ou mesmo inexistente — e, ainda assim, Bastoni deixou-se cair de forma ostensiva. O árbitro La Penna entendeu ser o segundo cartão amarelo e expulsou Kalulu.
O que alimentou a controvérsia foi o limite do recurso tecnológico: o VAR não pode intervir em decisões relacionadas a um cartão amarelo quando este resulta no segundo e consecutivo; o protocolo vigente não prevê a revisão desse tipo de lance, mesmo que o vídeo apresente evidências claras de simulação. A impossibilidade de correção fez o incidente atravessar fronteiras e redações.
O francês L’Equipe ironizou ao comparar o comportamento de Bastoni a uma exibição olímpica: “Pierre Kalulu recebeu um segundo cartão amarelo… per Alaessandro Bastoni, medaglia d’oro di volo planato”, notando a teatralidade do defensor nerazzurro. Já o Daily Mail, do Reino Unido, foi direto: “Cartellino rosso strano! O árbitro expulsa erroneamente Kalulu em Juventus-Inter. Um erro arbitrale palese!”.
Além da anedota jornalística, a cena toca questões mais profundas. Primeiro, a persistência da simulação: atitude que varia de encenação isolada a estratégia de jogo, incentivada por um ambiente em que o benefício imediato (um jogador adversário a menos) pode sobrepor o custo moral. Segundo, a arquitetura regulatória: se a tecnologia existe para revisar gols, pênaltis e expulsões diretas, por que não há ferramenta para corrigir uma expulsão baseada em um segundo amarelo manifestamente injusto?
Como analista, vejo nesse caso dois vetores a considerar. Um é disciplinar: federações e ligas precisam calibrar punições e campanhas educativas contra a simulação, restaurando o equilíbrio entre competitividade e fair play. Outro é técnico-institucional: a revisão dos protocolos do VAR deveria acompanhar a expansão do recurso, oferecendo margem para corrigir erros que alteram profundamente uma partida — notadamente quando a sanção culmina em expulsão.
Por fim, o episódio não é apenas sobre um cartão ou uma partida: é sobre memória coletiva. A imagem de um defensor caindo dramaticamente e de outro deixando o campo mais cedo entra na narrativa do futebol contemporâneo, influenciando torcidas, árbitros e reguladores. A discussão prosseguirá nas próximas semanas, e cabe às entidades responsáveis transformar o desconforto midiático em mudanças concretas.
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