Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O derby de San Siro da 25ª rodada da Serie A não apenas definiu pontos na tabela; transformou-se, em minutos, num episódio de disputa simbólica entre narrativa pública e ética esportiva. No centro dessa controvérsia está Alessandro Bastoni, cujo gesto depois do cartão vermelho dado a Pierre Kalulu virou imagem viral e detonou uma onda de críticas nas redes sociais.
Os fatos são objetivos: Kalulu, já advertido, recebeu um segundo cartão amarelo após um choque com Bastoni. O árbitro aplicou a expulsão; o replay, porém, tem rosto de dúvida: não existe um contato claro que justifique a queda de Kalulu, enquanto Bastoni aparece no chão, tendo acentuado o lance. Importante registrar a limitação técnica que moldou a decisão final: com as leis atuais de arbitragem, o VAR não atua sobre decisões que resultam de cartões duplos, e assim a expulsão permaneceu confirmada.
Se a discussão esportiva poderia se concentrar na interpretação do lance, ganhou outro contorno pelo comportamento subsequente. A comemoração de Bastoni — um gesto visível pelas câmeras e interpretado por muitos como provocativo por ter sido dirigida às costas de Kalulu já caído — alimentou a acusação de simulação e de conduta antidesportiva. O vídeo do episódio circulou rapidamente, acelerando as reações: insultos, pedidos por sanções e exigências para que o jogador fosse excluído de convocações futuras.
As redes mostram hoje um fenômeno que não é só emocional, mas estrutural: a capacidade de uma imagem compacta para catalisar julgamentos e politizar comportamentos. Perfis juventinos e outros torcedores inundaram as postagens de Bastoni com termos como “simulador” e “antisportivo”, e a pressão levou a equipe de mídias a limitar comentários no Instagram. Em plataformas como X, o tom seguiu semelhante, com pedidos que iam de sanções à seleção nacional até ameaças mais duras.
Como analista, é preciso separar três planos: o técnico, o ético e o cultural. No plano técnico, há margem para debate sobre interpretação do contato e sobre o alcance do VAR — um lembrete de que as regras influenciam decisões e que, quando o protocolo impede revisão, a sensação de injustiça se amplifica. No plano ético, a exultação às costas de um adversário caído toca códigos de fair play que operam além das leis; a imagem agrava uma percepção de falta de respeito. No plano cultural, o episódio revela a velocidade com que redes e tribunas formam memória pública: um gesto vira narrativa definida e, muitas vezes, irreversível.
Há, ainda, implicações institucionais: convocações para a seleção e a reputação de um atleta se movem num espaço em que imprensa, torcedores e federações interagem. Pedidos públicos para que treinadores ignorem jogadores por conduta reproduzem uma lógica de punição social que, se legítima em alguns casos, também pode ser desproporcional quando baseada em um único episódio amplificado.
Concluo com uma observação menos imediatista: o futebol italiano vive suas contradições entre tradição de respeito e cultura de rivalidade intensa. Imagens como a de Bastoni e Kalulu funcionam como espelho — e como alerta — sobre como queremos que o jogo seja lembrado. A investigação factual e a aplicação das regras seguirão seu curso; cabe à sociedade futebolística decidir se a resposta será pedagógica, punitiva ou apenas efêmera.






















