Por Giulliano Martini — Apuração em campo e cruzamento de fontes documentais: no duelo de semifinal do Australian Open que colocou Carlos Alcaraz na final, uma interrupção médica suscitou protestos formais do alemão Alexander Zverev e reabriu debate sobre a aplicação do regulamento ATP.
O episódio ocorreu durante o terceiro set. Com sinais de desconforto muscular, o espanhol acionou um medical time out no momento da troca de lado, alegando sofrer de cãibras. Zverev reagiu de imediato junto ao árbitro de cadeira, visivelmente contrariado: “É inacreditável que ele seja tratado por cãibras, isso não faz sentido”, reagiu em alemão, acrescentando uma queixa mais ampla sobre um suposto tratamento diferenciado que, na sua visão, beneficiaria também nomes como Jannik Sinner.
A verificação documental feita pela nossa redação confirma que, no essencial, Zverev tem fundamento técnico. O regulamento ATP deixa claro que cãibras musculares não justificam a concessão de um medical time out separado: o atleta pode receber tratamento para cãibras apenas durante os períodos já previstos para alterações de jogo — trocas de lado, intervalos entre sets e outras interrupções estabelecidas pela organização.
O texto das normas especifica também quando um tempo médico pode ser autorizado: “A um jogador é concedido um medical time out por cada distinta condição médica tratável. Todas as manifestações clínicas de um mal-estar provocado pelo calor devem ser consideradas como uma condição médica tratável. Lesões musculoesqueléticas tratáveis que se manifestem como parte da cadeia cinética são consideradas uma condição médica tratável.” O regulamento ainda prevê que dois medical time outs consecutivos só podem ser admitidos se o fisioterapeuta determinar que existem pelo menos duas condições médicas distintas e tratáveis.
Em termos práticos, isso significa que o tratamento de cãibras é restrito ao tempo previsto para intervenção no decorrer do jogo e não enseja, por si só, um tempo médico adicional fora desses intervalos. Em caso de dúvida sobre a natureza da condição (aguda, não aguda ou incurável), a decisão do fisioterapeuta em conjunto com o médico do torneio é final.
O episódio remete a um caso recente envolvendo Jannik Sinner e Spizzirri, quando a pausa para fechamento do teto do complexo serviu de janela para atendimento, e reforça a importância do critério técnico na interpretação das regras. A prática — analisada aqui com foco no texto regulamentar e nas imagens do jogo — confirma que a reclamação de Zverev não foi apenas frívola: trata-se de uma questão regulatória com impacto direto na dinâmica de partidas de alto nível.
Conclusão factual: a intervenção médica por cãibras só é permitida dentro das janelas formais de interrupção previstas nas regras ATP; se o tratamento ocorrer fora desses momentos e for classificado como um medical time out, isso contraria o regulamento. Cabe aos oficiais e ao corpo médico do torneio aplicar essa norma de forma consistente, preservando a integridade competitiva.
Apuração em campo, consulta ao regulamento e checagem com especialistas em medicina esportiva foram os elementos que embasaram este relato. A realidade traduzida: havia fundamento objetivo na reclamação de Zverev.






















