Melbourne — O Australian Open registra uma sequência incomum de episódios de desconforto abdominal entre os jogadores, com impacto claro entre os tenistas italianos. Em apuração in loco e cruzamento de fontes no circuito, identifiquei ao menos três casos confirmados: Jasmine Paolini, Flavio Cobolli e Luciano Darderi. A situação levou também à desistência de Gaston no confronto com Jannik Sinner, por cãibras abdominais.
Após a derrota por 6-2, 7-6 diante de Iva Jovic, Paolini descreveu o episódio como algo atípico: ‘Assim não me tinha acontecido antes, mas há dias em que se digere pior. Talvez a tensão, meu respirar estava ofegante e senti algo preso no estômago’. A jogadora chegou a retornar aos vestiários, recebeu atendimento médico e parecia recuperada, mas sofreu novo colapso durante o desenrolar do dia.
O relato de Paolini espelha ocorrências já registradas: Flavio Cobolli abandonou a partida contra Arthur Fery no primeiro turno por mal-estar estomacal, e Luciano Darderi precisou sair abruptamente para o banheiro logo depois de vencer Nicolás Garin na estreia. Entre outros casos do torneio, há sinais de mal-estares temporários também entre os ball-boys e jogadores que solicitaram atendimento, sugerindo um quadro difuso.
Fontes médicas presentes no clube de Melbourne indicam que a hipótese mais consistente é a circulação de um vírus gastrointestinal no entorno do complexo. Esse fator se soma a condições ambientais extremas e imprevisíveis: durante os dias do torneio as temperaturas variaram aproximadamente entre 18 ºC e 40 ºC, gerando estresse térmico e oscilações bruscas provocadas por ar condicionado intenso em ambientes fechados.
O efeito combinado — agente infeccioso e diferenças térmicas — tem sido apontado por profissionais de saúde do evento como responsável pelo aumento de episódios. Em consequência, a organização já decidiu antecipar parte da programação em dias de alerta climático, numa tentativa de mitigar exposição ao calor e às mudanças de temperatura durante o dia.
O impacto já aparece na lista de ausências e retiradas: além dos casos italianos mencionados, partidas foram interrompidas ou jogadas sob condicionantes físicos, com exemplos como Auger-Aliassime, Collignon contra Musetti, Zheng, além do confronto em que Gaston teve de abandonar diante de Sinner.
Em paralelo ao problema de saúde coletiva, Jannik Sinner adotou uma estratégia pessoal de controle: manter a rotina alimentar. O número um italiano voltou a comer na Trattoria Emilia em Melbourne, onde o chef Francesco Rota criou em 2022 o prato conhecido como spaghetti alla Berrettini, originalmente pensado para Matteo Berrettini. A receita leva massa ao molho de tomate San Marzano, tomates também em versão confit carmelizada, azeite extravirgem, ervas aromáticas, manjericão e queijo parmesão a gosto.
Sinner explicou que a repetição do prato no restaurante do clube faz parte de sua rotina e pode ter um componente supersticioso, mas sobretudo funcional: ‘Certo, pode ser escaramância. Algumas coisas eu gosto de repetir, principalmente no circuito, porque fazem parte da minha rotina. Fora disso eu mudo, mas a massa estava muito boa’, disse o italiano na conferência.
Conclusão preliminar da apuração: trata-se de um problema multifatorial. Há indícios de um surto gastrointestinal local, mas as flutuações térmicas e a logística de ar condicionado nos ambientes de apoio parecem amplificar os sintomas e o número de atendimentos médicos. A organização do torneio monitora a situação e ajusta horários, enquanto jogadores adotam medidas individuais de mitigação, como manter dietas familiares e rotinas alimentares conhecidas.
Apuração por Giulliano Martini. Relato baseado em entrevistas diretas, declarações públicas dos atletas e checagem com fontes médicas presentes no Australian Open.





















