Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Era uma presença esperada como rito coletivo: a chegada de Arianna Fontana ao palco do Teatro Ariston, no segundo dia do Festival de Sanremo, prometia ser mais do que um momento de homenagem esportiva — seria um gesto de reconhecimento público à trajetória de uma atleta que se tornou, nas pistas geladas, um espelho da Itália contemporânea. No entanto, o encontro não ocorreu. A campeã do short track, a mais condecorada entre os atletas de inverno italianos com 14 pódios, não compareceu porque foi acometida por uma forte influenza e registrada com 40 graus de febre, segundo comunicado da Rai.
O anúncio foi feito em coletiva pelo vicediretor dell’intrattenimento Prime Time da Rai, Claudio Fasulo, que relatou com objetividade: «Non ci sarà stasera sul palco dell’Ariston Arianna Fontana… perché ha 40 di febbre». A frase, embora curta, traduz a frustração que acompanha cancelamentos por saúde: a impossibilidade de estar presente fisicamente, que não anula, porém, o simbolismo do gesto planejado.
Fontana, 35 anos, natural de Sondrio, acumulou feitos que a colocam num lugar ímpar da memória esportiva italiana — ultrapassando, em número de pódios, nomes históricos como Edoardo Mangiarotti. Recentemente, a atleta publicou uma reflexão nas redes sociais que ecoou como uma curta elegia às Olimpíadas que se encerraram: a noção de uma nação unida nas vibrações e nas decepções de cada prova. «Sentire un intero Paese unito attraverso gli alti e bassi di ogni gara è stato ciò di cui avevamo tutti bisogno», escreveu ela, lembrando que apagar a chama olímpica não significa apagar a experiência coletiva construída ao longo dos jogos.
Mesmo ausente, o tributo de Sanremo foi mantido simbolicamente. A Rai confirmou a presença de outros atletas: Francesca Lollobrigida (bicampeã olímpica), Lisa Vittozzi (vencedora do primeiro ouro italiano no biathlon feminino de perseguição) e os campeões paralímpicos Giacomo Bertagnolli acompanhado por Andrea Ravelli, além de Giuliana Turra, do curling em cadeira de rodas. A programação, assim, procurou preservar a dimensão coletiva do reconhecimento nacional, mesmo que a homenageada principal assistisse de casa, entre repouso e mensagens de agradecimento.
Do ponto de vista cultural e simbólico, a ausência de Arianna Fontana no palco de Sanremo tem leitura dupla. Por um lado, revela a fragilidade inerente a calendários que misturam celebração e exaustão física; por outro, confirma o papel dos grandes eventos culturais como palcos de afirmação de memórias nacionais — um lugar onde a trajetória de um atleta se transforma em narrativa pública. Seu ouro e os dois bronzes conquistados em Milano-Cortina tornam-na figura central de uma temporada que reescreveu parte da história do esporte italiano.
Os votos de pronta recuperação vem de gestores, colegas e do público. A febre a impediu de subir ao Ariston, mas não de ser vista — e sentida — pela Itália que a aplaudiu nos pódios e nas transmissões. Em termos práticos, resta aguardar a recuperação completa e a retomada das aparições públicas, sempre ponderando que, em esportes de alta intensidade como o short track, a saúde é pré-condição para a excelência e para a narrativa coletiva que dela se conclui.
Data da reportagem: 25 de fevereiro de 2026.






















