Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A história de Alessandra Campedelli é, ao mesmo tempo, um retrato das possibilidades e das contradições do esporte contemporâneo e um testemunho sobre como a prática esportiva pode virar instrumento de emancipação. Professora em Villa Lagarina e técnica com experiências no Irã e no Paquistão, Campedelli transformou uma oportunidade profissional — a de ser a única mulher italiana capaz de treinar internacionalmente — em compromisso humano. Hoje, em plena trajetória de divulgação do livro “Io posso. Un’allenatrice di pallavolo in Iran e in Pakistan”, ela anuncia mais um desafio: assumirá, como voluntária, a seleção feminina da Tunísia.
O que motivou essa escolha vai além dos resultados em quadra. Para Campedelli, o voleibol é uma via de acesso a debates mais amplos sobre gênero, poder e sociedade. “Não encaro isso apenas como trabalho ou paixão: é uma missão”, afirma a técnica, que tem percorrido cidades italianas em encontros públicos. Em Trento, a convite do Lions Club presidido por Antonella Chiusole, a sala esteve cheia — sinal de que a narrativa que ela propõe encontra eco. No dia 1º de março, o Teatro di Povo receberá a estreia do docufilm “Donne di Altri mondi”, no qual Campedelli é protagonista.
Mais do que relatar episódios de treinamento, a sua fala coloca em evidência a condição das atletas que deixou no Irã. Segundo relatos da treinadora, as jogadoras vivem sob vigilância intensa, porque o esporte no país está estreitamente ligado ao aparato estatal. “Elas me mandam mensagens e, logo em seguida, pedem para eu apagar. Uma delas publicou um post crítico e recebeu imediatamente uma ordem: remova-o, e saiba que na próxima vez iremos buscá-la”, conta Campedelli. Há, nas suas palavras, um clima de terror cotidiano: execuções de manifestantes — entre os quais há atletas — e uma repressão que transforma práticas desportivas em atos de risco.
Esse quadro explica atitudes que, externamente, podem parecer contraditórias. As jovens iranianas, que até semanas atrás repetiam que não queriam trocar um dominador por outro, hoje chegariam a desejar intervenção externa — inclusive dos EUA — como forma de libertação. Para Campedelli, essa esperança é sintoma de desespero: “Eles percebem que o mundo não os observa e então aceitam qualquer ajuda que possa tirá-los da tirania”.
Ao analisar a postura ocidental perante as tragédias que afligem populações do mundo islâmico, Campedelli aponta para motivos estruturais: medo de antagonizar atores com poder econômico e militar e interesses geopolíticos que pesam mais do que a empatia humanitária. É uma leitura fria, mas necessária, sobre como decisões políticas modelam o destino de atletas e de comunidades inteiras.
Com a nova missão na Tunísia, Campedelli não busca holofotes. A proposta de trabalhar como voluntária confirma uma prática que ela defendeu ao longo da carreira: utilizar o esporte como instrumento de formação e de agência social. Sua trajetória — do ensino em Trentino às quadras de Teerã e dos campos paquistaneses — demonstra que, quando o desporto encontra intenção política e sensibilidade cultural, o resultado ultrapassa o placar. Torna-se memória coletiva, processo de emancipação e, sobretudo, responsabilidade internacional.
Enquanto promove o livro e prepara o docufilm, Alessandra mantém contato diário com as jogadoras iranianas. A ligação é tanto emocional quanto política: uma lembrança de que, atrás de cada federação e de cada competição, existem seres humanos sujeitos às vicissitudes de regimes e interesses globais. O próximo capítulo de sua carreira, na Tunísia, será mais um teste sobre a eficácia do esporte como ferramenta de libertação e de construção de horizontes, em contextos onde liberdade e segurança continuam sendo bens escassos.






















