Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O encontro das quartas de final do ATP 500 de Doha entre Carlos Alcaraz e Karen Khachanov ganhou contornos além da disputa técnica: tornou-se cenário de um confronto tenso entre o número um do mundo e a autoridade dentro da quadra. O motivo foi uma advertência por time violation aplicada pelo juiz de cadeira, que inflamou a reação do espanhol.
O episódio aconteceu quando o árbitro assinalou a violação de tempo enquanto Alcaraz se dirigia ao seu toalha. Segundo o tenista, ele havia interrompido o cronômetro ao alcançar o equipamento: “Você não parou o tempo”, reclamou Alcaraz, aproximando-se do árbitro. “Eu parei o tempo a 25 segundos do início. Depois você pegou a toalha e reiniciou o relógio”.
A resposta do juiz de cadeira foi firme e descritiva sobre a sequência: “Eu parei de contar até você chegar. Parei de contar a 25 segundos do momento em que você alcançou a toalha”. A discordância permaneceu viva: Alcaraz insistiu que não lhe seria permitido buscar a toalha, enquanto o árbitro sustentou que havia seguido os procedimentos e não poderia anular a advertência.
O incidente escalou em termos verbais. Ainda durante o jogo, inquieto, Alcaraz se voltou ao seu banco e, dirigindo-se à sua equipe, proferiu uma crítica severa às normas institucionais: “As regras da ATP são uma m…” (tradução literal do xingamento captado durante a partida). O árbitro respondeu com frieza: “Entendido”.
Do ponto de vista desportivo e institucional, trata-se de um momento que ilustra duas tensões permanentes do tênis contemporâneo: a regulação técnica — imprescindível para a equidade das partidas — e a dimensão humana do atleta, sujeito a ritmos, rituais pessoais e gestão emocional. A aplicação de um warning por tempo pode parecer protocolo, mas nas mãos de um jovem campeão como Alcaraz torna-se elemento de fricção pública entre jogador e autoridade.
Historicamente, episódios semelhantes já foram registrados em grandes torneios, com diferentes implicações: desde multas e penalidades até debates sobre a necessidade de revisão de procedimentos que levem em conta a subjetividade do atleta. No caso de Alcaraz, a intensidade da reação não apenas evidencia sua competitividade, mas também coloca em pauta como a ATP comunica e aplica suas normas em partidas de alto perfil.
Em termos práticos, a advertência não alterou a continuidade da partida — Alcaraz voltou ao saque e manteve-se concentrado, ainda que visivelmente incomodado. Resta acompanhar se haverá posicionamento oficial da organização do torneio ou do próprio tenista nos dias seguintes, e se o episódio terá repercussão nas relações entre jogadores e árbitros nos eventos do circuito.
Mais do que um confronto anunciado entre dois tenistas de alto nível, a cena em Doha foi lembrança de que o esporte é, simultaneamente, regras e resistência humana — um território em que uma reação pessoal pode voltar-se em debate público sobre autoridade e legitimidade.






















