Abdon Pamich, 92 anos, exilado istriano e um dos maiores marchadores da Itália — campeão europeu, múltiplo campeão nacional, cinco vezes olímpico e ouro em Tóquio 1964 — viveu na terça-feira passada um episódio constrangedor durante a passagem da fiamma olimpica por Vicenza. Segundo relatos coletados e cruzados em apuração, o veterano foi deixado sozinho na via pública após participar como tedoforo em uma etapa do revezamento.
O caso foi inicialmente relatado em 26 de janeiro pelo Giornale di Vicenza e logo virou foco de protestos locais. Testemunhas afirmam que, depois de entregar a tocha a outro participante, Pamich ficou para trás sem assistência e chegou com atraso à cerimônia final na Piazza dei Signori, onde seu nome não teria sido citado no palanque junto à Basilica Palladiana.
O veterano participou do revezamento a convite de Dario Zaccariotto — também filho de exilados istrianos — que explicou ter organizado uma passagem simbólica entre um exilado e um descendente de exilados. Segundo Zaccariotto, após a troca de tocha o cortejo prosseguiu em direção à praça, enquanto Pamich teria permanecido para trás.
Representantes da Associazione Nazionale Venezia Giulia e Dalmazia acompanharam o atleta até um veículo. Entre eles estava a presidente de Vicenza, Maria Cristina Sponza, que registrou nas redes sociais sua indignação. Em nota pública, o assessor municipal responsável por grandes eventos, Leone Zilio, declarou que havia um micro-ônibus disponível para recolher os tedofori, mas confirmou que Pamich foi encontrado na rua e, por consequência, chegou atrasado à cerimônia. “Ci è dispiaciuto, ma non è colpa nostra”, afirmou o assessor, informando ainda que o município enviou uma queixa formal à organização da Fundação.
A Fundação Milano–Cortina, responsável pela gestão do revezamento, enviou uma resposta oficial citada pela Gazzetta dello Sport. No comunicado, a entidade afirma que “ao campione Olimpico Abdon Pamich, como a todos os tedofori, foi regularmente oferecido o serviço de van para o retorno ao collection point. O senhor Pamich, contudo, escolheu livremente não subir na van, preferindo prosseguir a pé”. A Fundação acrescentou que a participação na “city celebration” não estava prevista para Pamich, já que esse momento é reservado ao último tedoforo incumbido da acender a pira.
Do ponto de vista organizacional, conforme a Fundação, o apoio inclui o transporte dos tedofori do ponto de reunião até o local de entrega da tocha e o retorno ao collection point ao final do percurso. A entidade reconhece que, em alguns casos, os portadores optam por se deslocar por conta própria até a celebração pública, o que teria sido a opção de Pamich.
Protagonista de uma trajetória esportiva de alto prestígio e memória coletiva, Abdon Pamich segue no centro do episódio que reacende debates sobre logística, respeito a veteranos e comunicação institucional durante eventos de grande visibilidade. A apuração, feita com cruzamento de fontes locais e documentos oficiais divulgados até o momento, confirma a existência de versões divergentes entre organizadores, autoridades municipais e representantes das associações de exilados — sem, até aqui, um consenso público sobre a cronologia exata dos fatos.
Mantemos o acompanhamento da questão e publicaremos atualizações assim que novas evidências ou comunicações oficiais forem disponibilizadas.






















