A temporada de prêmios de Hollywood abre com um espelho claro das nossas feridas contemporâneas: os Golden Globes acolhem um favorito que parece desenhar o roteiro oculto da América polarizada. Una battaglia dopo l’altra, o novo fresco cinematográfico de Paul Thomas Anderson sobre as derivações extremistas nos Estados Unidos, lidera a corrida com nove indicações e chega como provável vencedor nas categorias de melhor comédia e melhor direção.
O filme funciona como uma espécie de atlas das fracturas sociais — um drama familiar ambientado num país ultra-polarizado onde as heranças políticas antagônicas do Black Power e do Ku Klux Klan parecem, tragicamente, encaminhar-se para a violência armada. No centro dessa narrativa está Leonardo DiCaprio, que interpreta um ex-revolucionário entorpecido pela maconha, forçado a reencontrar a lucidez para salvar a filha das garras de um supremacista branco. É o tipo de personagem que ressoa como espelho do nosso tempo: falho, combativo e, ao mesmo tempo, profundamente humano.
Na disputa por melhor ator em comédia, DiCaprio enfrenta Timothée Chalamet, elogiado por sua transformação em um jogador de ping-pong obcecado por sucesso em Marty Supreme. Já no campo das interpretações femininas, Teyana Taylor surge com força para uma possível estatueta de melhor atriz coadjuvante, graças a uma performance de alto impacto; entre as concorrentes estão Amy Madigan (“Weapons”) e Ariana Grande (“Wicked: Parte II”).
Os Golden Globes mantêm a divisão entre comédia e drama, o que evita o confronto direto imediato entre Una battaglia dopo l’altra e seu rival mais óbvio para o Oscar: Sinners. Este último mergulha na ferida profunda dos afro-americanos no Sul segregacionista dos anos 1930, misturando mitologias de vampiros com ritmos de blues e uma narrativa que expõe a violência racista como tecido social. Em paralelo, Hamnet aposta numa leitura novelizada do luto de Agnes e William Shakespeare após a morte do filho — e a performance de Jessie Buckley é apontada como forte candidata a melhor atriz.
Também surpreende a presença do filme norueguês Sentimental Value, de Joachim Trier, com oito indicações. O longa, que explora a relação dolorosa entre um pai cineasta e suas duas filhas, pode ser a chave para uma virada na categoria de melhor filme dramático — reflexo do novo gosto dos votantes por cinema autoral e internacional.
Os prêmios de hoje carregam a sombra das reformas institucionais pós-2021: abalados por escândalos que expuseram preconceitos e corrupção, os Golden Globes ampliaram o corpo de votantes com mais de 200 novos membros de diversas partes do mundo. Esse alargamento parece ter deslocado a balança: menos apetite por blockbusters e mais sensibilidade a títulos aclamados em Cannes e Veneza. É neste cenário que Wagner Moura surge como possível vencedor do Golden Globe de melhor ator em drama, por L’agente segreto, desafiando nomes como Michael B. Jordan (Sinners), enquanto Stellan Skarsgård figura como favorito ao prêmio de ator coadjuvante por sua participação em Sentimental Value.
Mais do que uma cerimônia, a noite dos Golden Globes deste ano funciona como um reframing cultural: o que se premia agora diz não só respeito à estética, mas também ao mapa político e à memória coletiva. Filmes que eram antes periféricos ao circuito comercial encontram voz num novo ecossistema de votantes que parecem ouvir mais atentamente os ecos culturais do cinema europeu e internacional. O prêmio, assim, torna-se menos sobre celebração efêmera e mais sobre a cartografia de onde estamos — e, talvez, para onde iremos.


















