Task, nova série da HBO em sete episódios, chega como um espelho sombrio do nosso tempo: menos policial procedural e mais fábula moral ambientada na periferia operária de Filadélfia, a célebre Delco. Escrita por Brad Ingelsby, a produção abandona parte do clássico thriller para se concentrar no roteiro oculto da sociedade, onde o crime funciona como um sintoma de falhas familiares, memória e destino.
A narrativa acompanha Tom Brandis, interpretado por Mark Ruffalo (58 anos), um agente do FBI e ex‑padre que lidera uma task force encarregada de barrar uma série de invasões a residências ligadas ao tráfico. Brandis não é apenas um investigador frio; é um homem em caminho de penitência, cujo ofício lembra mais uma via crucis do que uma simples missão de justiça.
Do outro lado desse duelo moral está Robbie Prendergrast (Tom Pelphrey), um coletor de lixo e pai de família que, empurrado pela desespero e pela vontade de vingar‑se, acaba envolvido em delitos para proteger quem ama. A trama constrói, com paciência quase litúrgica, a ideia de que a transgressão pode ser praticada na crença de que ela redime — uma coreografia trágica entre culpa e intento salvador.
O tom da série é deliberadamente lento; há episódios em que o ritmo desafia a paciência, mas essa lentidão é também responsável pelo acúmulo de tensão psicológica. Task se inclina para o family drama, transformando o crime em um espelho que reflete relações consumidas pelo abandono, pela fé privada e pela economia moral de comunidades marginalizadas.
O cenário da Pennsylvânia suburbana não funciona apenas como pano de fundo: é a geografia visível da decadência moral. Casas com crucifixos esquecidos, Bíblias cobertas de pó, igrejas que viram abrigos improvisados para dependentes — todos esses elementos compõem o eco cultural de um lugar que perdeu símbolos e continua a buscar um sentido.
Em cena, figuras ambíguas ilustram dilemas contemporâneos. Um policial corrupto, Anthony Grasso (Fabien Frankel), faz um pedido de perdão que é recebido com uma resposta que soa como sentença: «Nunca perdoei ninguém, as pessoas já se punem o bastante sozinhas». A fala sintetiza a atmosfera de julgamento pessoal que permeia a série.
Visualmente e simbolicamente, dois elementos retornam como motivos: a água e a ferrugem. A água aparece com sua dupla faceta — purificadora e erosiva —; a ferrugem, por sua vez, fixa a corrupção no tempo, como uma memória que consome e conserva simultaneamente. Essa semiótica do viral transforma objetos e paisagens em registros da consciência coletiva.
Ao final, Task propõe um reframe da narrativa criminal: em vez de buscar a simples resolução do mistério, a série investiga o que resta das pessoas depois do erro, do sacrifício e da tentativa de salvação. Não é entretenimento leve, mas uma experiência que desafia o espectador a olhar além do enredo, para as linhas de força que moldam escolhas e destinos.
Para quem espera o clássico giallo, a produção pode decepcionar; para quem deseja um drama moral que lê o crime como sintoma social e psicológio, Task oferece um roteiro denso, quase litúrgico, sobre culpa, penitência e a busca — muitas vezes falha — por redenção.

















