Por Chiara Lombardi — No último confronto antes da grande decisão, Tali e Quali desenhou mais um capítulo do seu roteiro íntimo sobre identidade e memória musical. Na noite em que dez intérpretes não profissionais subiram ao palco da Rai 1 para encarnar ícones da cena italiana e internacional, dois performances se destacaram e conquistaram, com justiça, o público e a bancada de jurados: Ligabue e Pino Daniele.
O veredicto foi selado por uma mesa crítica que reuniu o afiado Cristiano Malgioglio, o versátil Massimo Lopez e a apresentadora Alessia Marcuzzi — e, para esta edição, contou com a presença especial de Orietta Berti. Contra a luz dos refletores e o rigor da técnica vocal, os concorrentes ofereceram mais do que reproduções: mostraram interpretações que funcionaram como espelhos do nosso tempo, releituras onde a performance se torna um reframe da realidade cultural.
Raffaele De Benedictis, vestindo a persona de Ligabue, levou ao palco o clássico “Questa è la mia vita” com uma entrega que conquistou os jurados. Sua vitória na noite foi consolidada pela sensibilidade em transpor não apenas a voz, mas o gesto e a atitude do cantor original — um trabalho de imitação que ultrapassa a mera imitação e transforma-se em comentário sobre a presença do artista na memória coletiva.
Ao seu lado, Paolo De Vivo representou com excelência Pino Daniele, evocando o timbre e a expressão que tornaram o músico um símbolo do Mediterrâneo sonoro italiano. A dupla, agora confirmada para a finalíssima, soma-se aos vencedores das duas primeiras noites do programa e aos melhores intérpretes das edições anteriores, em uma disputa marcada para 30 de janeiro com o objetivo de conquistar o título de Campione di Tali e Quali 2026.
O formato do programa, que celebra a habilidade de se transformar — e de fazer o público acreditar nessa transformação — funciona como um pequeno laboratório cultural. Aqui, a imitação revela tanto as fissuras quanto os vínculos que ligam diferentes gerações de ouvintes. O que vemos no palco é a semiótica do viral e ao mesmo tempo um exercício de preservação: relembra-se o repertório, reencontra-se a emoção e, em muitos casos, reconstrói-se a história afetiva do espectador.
Nas próximas semanas, a atenção se volta para 30 de janeiro, quando a finalíssima promete reunir não apenas talentos pontuais, mas intérpretes que conseguiram traduzir em palco o roteiro oculto da sociedade — o desejo de se reconhecer em outra voz, a nostalgia como forma de narrativa e a performance como espelho do desejo coletivo.
Enquanto isso, Tali e Quali continua a operar como um espelho do nosso tempo: um entretenimento que, ao reproduzir estrelas, revela também quem somos quando nos vemos refletidos nelas.






















