Como uma vitrine que reflete o espírito dos nossos tempos, a programação da Sky e da Now para os próximos meses desenha um mapa onde luxo, ambição e violência se entrelaçam. No centro dessa constelação está Gucci – Fine dei giochi, série em seis episódios dirigida por Gabriele Muccino, que reconstrói o episódio que abalou a Milão do luxo: o assassinato que expôs fissuras familiares e o preço do prestígio.
Adaptada do memoir Luci e ombre sulla mia famiglia de Allegra Gucci, a produção coloca no primeiro plano a figura de Patrizia Reggiani, interpretada por Miriam Leone, e Maurizio Gucci, vivenciado por Francesco Scianna. Scianna resume bem o desafio: a intensidade da trama e a oportunidade de mergulhar na complexidade das relações «num ambiente em que se sente o peso de uma máscara a vestir». É, em suma, o reframe de uma dinastia italiana consumida pela luta pelo poder — o roteiro oculto da sociedade que transforma afeto em cálculo.
Ao lado desse drama familiar, a oferta é plural. Em Ligas (a partir de 6 de março), Luca Argentero interpreta um advogado iconoclasta, despedido por não distinguir dever e prazer. Sua volta às margens do sistema judicial, aceitando casos aparentemente sem esperança, promete ser um estudo sobre redenção e vaidade profissional — uma espécie de espelho do nosso tempo sobre honra e ego.
Rosa Elettrica (a partir de 8 de maio) leva a assinatura de um crime on the road e traz Maria Chiara Giannetta como uma agente recém-transferida para o Nucleo de Protezione Testimoni, responsável por escoltar um pentito da camorra. É um encontro entre os cenários brilhantes do cinema de estrada e a dureza do universo do crime organizado, uma semiótica do viral que combina espetáculo e perigo.
Nord Sud Ovest Est mira o universo pop: em oito episódios, pretende retratar as circunstâncias que levaram ao segundo álbum dos 883, uma crônica sobre juventude, ambição e tempos musicais que moldaram gerações.
Outros projetos exploram o crime a partir de diferentes lentes. Il sospetto, cuja produção começará nos próximos meses, toma emprestado casos reais para construir um suspense: um feminicídio que intriga uma jovem de 17 anos com problemas auditivos. Ao encontrar um objeto da vítima em um galpão, ela começa a suspeitar do homem em quem mais confia — seu pai. Esse enredo promete discutir confiança, trauma e a percepção distorcida da verdade.
Quelli che… la mala mergulha na Milão dos anos 70 e 80 — a cidade do Derby, de Turatello e Vallanzasca — apresentando uma metrópole negra e romântica, onde a violência era rotina e o imaginário urbano se forjava entre cabaret e crime. É uma evocação histórica: Milão «não ainda para beber», mas cidade perigosa e pulsante, com um passado que ainda ecoa.
Por fim, Fuori menù contrasta o mundo “fighetto” da alta gastronomia com a dureza do sistema penitenciário, sugerindo um confronto de estilos de vida e códigos morais — uma mise-en-scène onde pratos e punhos contam histórias de privilégio e marginalidade.
O conjunto dessas produções forma um painel que vai além da simples programação: são peças de um mosaico cultural que traduzem ansiedades contemporâneas — ambição, identidade, decadência — em narrativas visuais. Como observadora do zeitgeist, vejo nessa safra a evidência de que o entretenimento italiano continua a usar o audiovisual como espelho do nosso tempo, revelando as rachaduras por trás das fachadas mais reluzentes.





















