Por Chiara Lombardi — Na seção de cineconselhos, destaque para as estreias nas salas e os títulos que chegam às plataformas: Scream 7, Miroirs No. 3 – Il mistero di Laura, Chopin, Notturno a Parigi, Il suono di una caduta, Il filo del ricatto – Dead Man’s Wire, Whistle – Il richiamo della morte, L’illusione perfetta – Now You See Me, Now You Don’t, La vita va così, The Dead Don’t Hurt – I morti non soffrono e The life of Chuck. Estes títulos formam um mosaico de gêneros e sensibilidades: do horror clássico ao drama íntimo, da música como biografia ao thriller digital.
No centro deste panorama está Scream 7, uma sequência que confirma o que a série sempre foi: um manual vivo de códigos do horror que se reinventa com o público. A saga funciona como um espelho — literal e simbólico — do nosso tempo; o espectador envelhece ao lado das personagens que voltam ciclicamente a encarar monstros, traumas e arquétipos do medo. A franquia transformou o universo slasher num dicionário pop dark: de Freddy Krueger a Laurie Strode, um repertório de medos que persiste e se reinterpreta.
Scream 7 começa como um conto de advertência moderno: um casal fascinado pelo macabro decide passar o fim de semana na casa onde nasceu a carnificina original, a residência que legendou a figura de Ghostface, o assassino com máscara que nasceu em 1996 como fruto da parceria entre cinema slasher e metanarrativa. A casa — quase um túnel de horrores em meio à brughiera — ostenta gadgets e a própria estátua do psicopata, agora em versão high-tech. O desfecho dessa excursão inaugural é previsível e violento; os incautos saem de cena e o filme, então, se revela.
O retorno de Ghostface atinge os sobreviventes da matança de Woodsboro, curiosamente nos arredores de um manicômio criminal mal vigiado. A continuidade com Scream 6 mantém personagens recentes — como as irmãs Tara e Sam Carpenter (interpretadas por Jenna Ortega e Melissa Barrera) e os irmãos Chad e Mindy Meeks (Mason Gooding e Jasmin Savoy Brown) — e reinstala antigas guardiãs da narrativa: a mãe-combatente Sidney Prescott (Neve Campbell) e a jornalista implacável Gale Weathers (Courteney Cox).
Há, em Scream 7, uma arquitetura de portas que se abrem e se fecham: rangidos, sustos definitivos, assassinatos criativos, armadilhas e perseguições. O roteiro, assinado por um dos nomes que definiram a saga — o criador e roteirista Kevin Williamson — opta por uma construção quase videogame, que traduz o caos geracional em imagens e saltos de tensão. Ghostface assume lado expressionista — lembrando um grito pictórico — e passa a encarnar medos sociais: a solidão que mata, o vizinho perigoso, a tecnologia que vira isca. O horror aqui não é apenas sangue; é um espelho do território psicológico coletivo.
Como analista cultural, não vejo Scream 7 apenas como mais um exemplar do subgênero: é um reframe daquilo que tememos e do modo como consumimos medo. A franquia constrói uma antologia de fantasmas modernos, disciplinando e celebrando códigos que atravessam gerações. Seja nas salas escuras ou nas telas domésticas, o filme convida ao ritual da audiência: reconhecemos os sinais, nos assustamos e, no fim, nos questionamos sobre por que continuamos a voltar ao mesmo espelho.
Entre as outras estreias da semana, vale acompanhar o mistério reflexivo de Miroirs No. 3, a delicadeza biográfica de Chopin, Notturno a Parigi e o thriller tenso de Whistle. Cada obra, à sua maneira, compõe o cenário de transformação cultural em que o entretenimento funciona como arquivo de memórias e operador de sensações.
Chiara Lombardi é crítica cultural e colunista de entretenimento. Nas suas leituras, cada filme é um pequeno espelho do nosso tempo.






















