Sanremo 2026 abriu como um ritual que combina memória e espetáculo: a voz que ajudou a construir o próprio mito do festival — Pippo Baudo — irrompeu pelo palco do Ariston com o tradicional «Buonasera, benvenuti al festival della canzone italiana», marcando o tom de uma noite que foi, simultaneamente, celebração e competição.
Na estreia do seu quinto Festival, o diretor artístico Carlo Conti encaminhou o público por esse fio nostálgico, dedicando a edição ao mestre Baudo. O Ariston respondeu como se a cena fosse um espelho do nosso tempo: em reverência e em festa. No tradicional rito da passagem de testemunho, voltou ao palco Olly, vencedor de 2025 com Balorda Nostalgia, lembrando a ideia de continuidade e do roteiro que se escreve a cada ano.
A primeira serata desenrolou-se entre as apresentações dos 30 Big em competição e momentos de alto impacto: a ovação para o maestro Peppe Vessicchio, a energia contagiante de Tiziano Ferro e a inesperada bênção de Kabir Bedi entregue a Can Yaman, numa ponte simbólica entre gerações — o Sandokan original abençoando o seu possível sucessor.
Tiziano Ferro celebrou 25 anos de carreira com um set que foi também uma pequena aula de história pop: abriu a cappella com Ti scatterò una foto, revisitou La differenza tra me e te, Lo stadio e Xdono, e apresentou o novo single Sono un grande. Em tom reflexivo e autocrítico, afirmou poder agora reconhecer os próprios acertos e omissões — uma declaração que ecoa como reframe sobre fama, redes e haters.
O palco flutuante recebeu ainda hits dançantes de Max Pezzali e o brilho contagiante de Elettra Lamborghini com Voilà. Sal Da Vinci evocou a tradição napolitana com Rossetto e Caffè antes da interpretação de seu tema em competição, Per sempre sì. A noite reservou também o momento cívico da celebração dos 80 anos da República, entremeado nas transições da programação.
Do lado da concorrência, a classificação provisória da primeira noite apontou no topo nomes como Arisa, Fulminacci, Brancale, Ditonellapiaga e a parceria Fedez–Masini. Esses primeiros sinais no placar funcionam como um termômetro: indicam inclinações do público e da crítica, mas o festival é um roteiro em movimento, sujeito a reviravoltas.
Houve momentos de descontração — o teatro transformado em karaoké coletivo após as saudações iniciais — e cenas que lembraram a natureza híbrida do evento: ao mesmo tempo tributo ao passado e vitrine do contemporâneo. A presença de veteranos e revelações confirma que Sanremo segue sendo um espelho cultural, onde músicas e personalidades se tornam índices do que a sociedade escolhe cantar, lembrar e celebrar.
Se a primeira noite foi um prólogo vibrante, resta acompanhar como essa narrativa será reescrita nas próximas serate: quem sobrevive ao escrutínio das votações, quais canções ganharão ressonância fora do teatro e que ecos culturais cada performance deixará no cenário de transformação que é a cena musical italiana.






















