Por Chiara Lombardi, Espresso Italia
Na edição desta Berlinale que tantas vezes busca o gesto radical e a sutileza moral, é Sandra Hüller quem ilumina a tela com um papel que reverbera além do figurino: em Rose, do austríaco Markus Schleinzer, a atriz encarna uma mulher que, após a Guerra dos Trinta Anos (século XVII), decide se passar por homem para sobreviver.
A decisão narrativa é simples e, ao mesmo tempo, cheia de camadas — como um close que revela uma cicatriz: Rose usa a marca que lhe atravessa o rosto para forjar uma identidade masculina, tomar posse do campo deixado por um falecido e ganhar a aceitação de uma comunidade que desconhece seu segredo. O enredo progride até um matrimônio que, para a protagonista, significa tanto proteção quanto a encenação de um papel social.
O episódio que altera essa frágil construção é quase fábula e quase tragédia: um ataque de abelhas faz Rose perder os sentidos e as socorristas descobrem seu sexo biológico. A partir daí, a história se afasta do anecdótico e entra no terreno do ritual social: processos judiciais por falsificação de gênero eram, segundo registros históricos na Alemanha, mais frequentes do que gostaríamos de imaginar — e quase sempre com desfechos implacáveis.
É na reta final que o filme dá sua guinada moral e estética. Rose encontra uma forma de defesa que não se limita a negar ou implorar: ela reivindica, com uma energia que atravessa séculos, uma ideia de liberdade que naquele tempo mal poderia ser concebida. O processo, claro, não lhe será favorável; nem a ela, nem à sua esposa. Ainda assim, a convicção que Rose carrega transforma a cena em algo como um roteiro oculto da resistência individual, uma afirmação que ecoa como um pequeno triunfo ético no espelho do nosso tempo.
Tecnicamente, o contraste em preto e branco assinado por Gerald Kerkletz acentua a peça como um objeto de memória: a fotografia severa remove o anedótico e expõe o essencial. A interpretação de Sandra Hüller, toda em economia — um trabalho de retirada, sem artifícios — é, paradoxalmente, de uma intensidade que persiste na retina. Vem à mente a Renée Falconetti de Dreyer em A Paixão de Joana d’Arc, não como imitação, mas como um parentesco de intensidade: faces que resistem, palavras que valem por atitudes.
Em suma, Rose não é apenas um filme de época; é um estudo sobre identidades impostas, sobre o preço social da dissonância e sobre como certas escolhas pessoais funcionam como pequenos atos de insurgência. Schleinzer e Hüller oferecem um filme que é, ao mesmo tempo, registro histórico e espelho cultural — e é justamente essa dupla leitura que o torna memorável.
Exibido na Berlinale — 16 fevereiro de 2026.





















