Por Chiara Lombardi — Em uma paisagem que funciona como espelho do nosso tempo, Rocco Papaleo regressa às raízes e ao ofício do contador de histórias com o seu sexto filme como diretor: Il bene comune, em cartaz a partir de 12 de março pela Piperfilm, em coprodução com Picomedia e Lessis More. Cantastorie por vocação, Papaleo assina um projeto que mistura teatro, música e cinema para reacender a ideia de comunidade e a urgência de nos reconhecermos uns nos outros apenas por sermos humanos.
O filme reúne um elenco que inclui Vanessa Scalera, Claudia Pandolfi, Teresa Saponangelo, Andrea Fuorto, Livia Ferri e Rosanna Sparapano. No centro da narrativa, um percurso físico se converte em transformação íntima: Biagio, uma guia turística — papel escrito por Papaleo em parceria com seu colaborador de longa data, Valter Lupo — e Raffaella, uma atriz de carreira inconstante, escolhem acompanhar quatro detentas até o maciço do Pollino em busca do secular pino loricato, símbolo de resiliência.
O enredo é minimalista e, por isso, potente: o caminho vira rito, encontro e mudança. Cada passo constrói uma partitura emocional que se solidifica em voz coletiva. A música, que é o pulso narrativo, foi cuidadosamente calibrada por Michele Braga, colaborador habitual de Papaleo, para alinhar personagens e tonalidades emocionais até que o conjunto funcione como uma só respiração.
Há algo de teatro canção na origem desta variação cinematográfica — um legado que o próprio Papaleo reconhece: “vengo dal teatro canzone”, diz ele, buscando uma linguagem que seja ao mesmo tempo íntima e sedutora para o público do cinema. Em entrevista, o artista revela ainda uma mudança de foco profissional: no próximo filme, pretende não mais interpretar. A decisão marca um desejo claro de concentrar-se na direção e encontrar o seu ritmo autoral, ou como ele coloca, um sucessor que o libere do papel em cena.
O simbolismo do pino loricato é explicado com a precisão poética que caracteriza o diretor: espécie milenar presente apenas no Parque do Pollino e nos Bálcãs, com exemplares que teriam mais de 1.250 anos — um monumento natural de resistência, “ancorado e inmarcescível”. Papaleo usa essa imagem como metáfora para convocar uma reflexão mais ampla: a necessidade de injeções de sentido de comunidade frente ao que Antonio Gramsci chamou de perigo da indiferença. Na sua ótica, podemos e devemos nos posicionar; a arte pode e deve servir como um catalisador para participação e empatia.
Retornar à Basilicata não é apenas escolha geográfica — é gesto de reencontro com memória e paisagem, e também estratégia estética. Assim como em Basilicata Coast to Coast, o território atua como coautoria da narrativa, um cenário de transformação onde corpos, histórias e emoções se entrelaçam. Papaleo lembra que a natureza é “a maior manifestação artística e poética” e que, portanto, o cinema pode se aproximar dela para narrar processos humanos essenciais.
Como analista cultural, não posso deixar de ver em Il bene comune um reframe do que entendemos por coletividade: um roteiro oculto que nos pede menos isolamento e mais sintonia. A aposta de Papaleo é na sutileza, na canção que une estranhos e faz deles coros improváveis. Se a era contemporânea precisa de narrativas que mostrem como a resiliência se manifesta em raízes e em nós, este filme se propõe a ser uma dessas raras telas que espelham e propõem.
Ficha rápida: direção e coautoria de roteiro por Rocco Papaleo, com texto escrito em conjunto com Valter Lupo, trilha e direção musical de Michele Braga, elenco com Vanessa Scalera, Claudia Pandolfi, Teresa Saponangelo, Andrea Fuorto, Livia Ferri e Rosanna Sparapano. Em cartaz a partir de 12 de março.





















