Por Chiara Lombardi — Em um curioso espelho do nosso tempo, duas séries concorrentes nas grandes redes italianas transformaram a figura da escola em cenário de missão e resiliência: La preside, da Rai1, com Luisa Ranieri na pele da diretora inspirada em Eugenia Carfora, e A testa alta, do Canale 5, com Sabrina Ferilli como a fictícia Virginia Terzi. Juntas, as produções vêm compondo um roteiro invisível sobre autoridade feminina, crise geracional e expectativas sociais — e os números mostram que o público respondeu com atenção.
Na soma das suas exibições lineares, as duas séries reuniram mais de 8,5 milhões de espectadores. Sozinha, La preside alcançou uma média de 4,7 milhões de telespectadores nos primeiros quatro episódios — exibidos em pares às segundas-feiras —, garantindo uma participação de audiência ( share ) de 27,2%.
Mas o quadro se amplia quando incluímos o consumo em plataformas: segundo levantamento da Total Audience, o público acumulado de La preside chega a 5,7 milhões, porque os dois primeiros episódios foram assistidos, on demand no RaiPlay, por mais de um milhão de pessoas. Os episódios três e quatro, exibidos na última segunda, já contabilizam quase 600 mil visualizações “incrementais” na plataforma — um indicador claro de fenômeno multiplataforma.
Do lado oposto, A testa alta somou 4 milhões de espectadores na transmissão pelo Canale 5, aos quais devem ser acrescentados cerca de 800 mil acessos on demand referentes aos primeiros dois episódios. Os números apontam para duas formas complementares de conexão com a audiência: enquanto uma série multiplica seu alcance via streaming, a outra reforça um vínculo forte em TV aberta.
Além das cifras, interessa observar o mapa sociocultural desses públicos. As duas obras mobilizam majoritariamente espectadores do gênero feminino, mas com perfis distintos: La preside atrai uma plateia mais adulta e envelhecida (com presença mais forte entre os maiores de 65 anos) e também mais escolarizada — 29% de share entre os universitários —, com distribuição relevante nas regiões do Centro e parte do Norte. Já a audiência de A testa alta é mais popular e jovem: destaca-se entre os 25-34 anos, com 32% de participação, e apresenta grande força nas regiões do Sul, como Puglia e Sicília, onde chega a 45% de share.
É tentador ler esse dueto televisivo como a emergência de uma nova tendência: a presidi-heroína — a figura da diretora que vira narradora coletiva de conflitos familiares, fragilidades adolescentes e abandono institucional. Essas personagens funcionam como espelhos do nosso tempo, onde a escola torna-se palco do debate sobre autoridade, cuidado e luta por inclusão.
Os dados foram processados em colaboração com Massimo Scaglioni e elaborados pela Geca com base em dados Auditel. Se o entretenimento é muitas vezes percebido como escapismo, aqui ele age como reframing: rearticula a percepção pública sobre instituições e destaca como o audiovisual pode reescrever a narrativa social a partir de rostos que assumem responsabilidade.






















