Il Divo: o título, a história real e o eco cultural por trás do filme
Na noite de segunda-feira, 2 de fevereiro, às 23h00, a emissora italiana La7 reapresenta Il Divo, o longa-metragem de 2008 escrito e dirigido por Paolo Sorrentino. Mais do que reexibir cenas ou reconstruir eventos, o filme devolve à tela o que eu chamo de um espelho do nosso tempo: a relação entre poder, imagem pública e memória coletiva.
O título, simples e enigmático, não é gratuito. Refere-se ao apelido atribuído a Giulio Andreotti — “divo Giulio” — pelo jornalista Mino Pecorelli, assassinado em Roma em 1979. A palavra “divo” evoca imediatamente figuras maiores que a vida, uma teatralidade que relembra os reis e as divindades da antiguidade, como Gaio Júlio César. Na escolha do título, Paolo Sorrentino faz um gesto de casting semântico: transforma o político em personagem, escava a mitologia moderna que o circunda e nos convida a assistir a um rito público e privado ao mesmo tempo.
O filme se baseia na trajetória de Giulio Andreotti, figura-chave da Democracia Cristã, especialmente durante os primeiros anos da década de 1990, quando o cenário político italiano passava por convulsões. A direção de Paolo Sorrentino não se limita a uma biografia tradicional. Em vez disso, ele reconfigura o real como mise-en-scène — um reframe que transforma documentos e depoimentos em imagens carregadas de simbologia. O resultado é uma obra que lê a história política como se fosse um roteiro, revelando o lado performático do poder.
Há, portanto, duas camadas a considerar: a factual e a simbólica. Factualmente, o apelido vem de uma publicação de Mino Pecorelli e consolidou-se como parte da narrativa pública sobre Andreotti. Simbolicamente, o termo “divo” permite a Sorrentino explorar a ideia de liderança como espetáculo e enigma. O assassinado jornalista e os episódios judiciais que rondaram Andreotti conferem ao filme uma tensão entre verdade e representação — uma tensão que é, por excelência, o roteiro oculto da sociedade italiana daquele período.
Rever Il Divo hoje é confrontar um eco cultural que continua relevante: como as figuras públicas se tornam arquétipos e como o público, a imprensa e o cinema colaboram para construir essas imagens. O longa funciona como um atlas visual da política, com enquadramentos que lembram retratos oficiais e sequências que mais parecem cenas de um teatro de sombras, onde as silhuetas do passado projetam sombras longas sobre o presente.
Para quem pretende assistir à exibição na La7, é uma oportunidade de revisitar não apenas uma peça notável do cinema italiano contemporâneo, mas também de refletir sobre a semiótica do poder — sobre como um apelido pode encapsular mitos, culpas e a teatralidade de toda uma classe dirigente.
Em suma, o filme se chama Il Divo porque transforma Giulio Andreotti em figura mítica e, ao fazê-lo, nos força a olhar para além do ocorrido: para entender o porquê dessa mitificação e o papel que o cinema desempenha ao preservá-la ou desfiá-la.





















