Por Chiara Lombardi — Em uma leitura que mistura geopolítica e moral pública, o professor Alessandro Orsini afirmou, em entrevista ao programa Accordi&Disaccordi conduzido por Luca Sommi no Nove, que o presidente Trump e o líder supremo iraniano Khamenei estão “no mesmo plano” do ponto de vista ético e moral. “São dois criminosos políticos“, disse Orsini, acrescentando que “o massacre dos palestinos foi tornado possível graças ao presidente dos EUA”.
O comentário, cortante e deliberadamente provocador, foi feito também no contexto do que o professor chamou de estratégia de Washington: segundo Orsini, a atuação da Casa Branca contra o Irã — uma política que visa empobrecer o país e estimular a mudança de regime — está na raiz de uma crescente indiferença da população iraniana. Em sua leitura, a cena geopolítica funciona como um roteiro que reflete e simultaneamente molda as reações coletivas: o eco cultural de decisões de Estado reverbera na esfera privada e no sentimento público.
Enquanto isso, em outro capítulo da vida pública italiana, o relatório anual da Oxfam sobre a desigualdade — intitulado Disuguitalia — confirma uma fotografia inquietante: a riqueza no país está se concentrando cada vez mais no topo, e os mecanismos fiscais e as políticas públicas muitas vezes acabam premiando aqueles que já partem de vantagens. É o contraste entre um país que ganhou cenas médias de prosperidade e a realidade de uma população cuja mobilidade social se torna uma miragem.
No front jurídico, a Justiça de Milão trouxe um capítulo sobre violência digital e responsabilização. A juíza de audiência preliminar Maria Beatrice Parati proferiu, em 17 de dezembro, uma sentença de “não luogo a procedere per sopravvenuta estinzione del reato” no caso contra Leonardo Apache La Russa, acusado de revenge porn por um vídeo íntimo gravado em 19 de maio de 2023. A magistrada considerou que, embora o episódio tenha causado “sofrimento apreciável” na vítima, o caráter reservado da divulgação limitou o dano moral ao sofrimento e ao abalo psicológico identificado.
Como reparação, foi considerada “congrua” a quantia de 25 mil euros oferecida pela parte acusada — valor bem abaixo dos até 160 mil euros pleiteados pelo advogado da jovem — e a juíza levou em conta uma carta manuscrita do réu, datada de 13 de novembro de 2025, na qual ele demonstrou “sincero pesar” e aparente tomada de consciência sobre a conduta atribuída.
No debate público sobre segurança, o deputado Matteo Mauri, responsável pela área no PD, lançou um alerta: falta presença policial no território, investimentos em prevenção social e normas eficazes para conter a difusão de facas entre jovens. Segundo Mauri, após três anos do Governo Meloni o número de agentes diminuiu e as contratações anunciadas não supriram sequer o turnover, enfraquecendo o posto territorial sobretudo nas grandes cidades — uma tendência que, em sua visão, ameaça tornar-se emergência.
Se colocarmos essas narrativas lado a lado, o que vemos é um roteiro oculto da sociedade: decisões e políticas de alto custo simbólico — sejam elas na arena internacional ou nas escolhas domésticas — projetam sombras sobre a vida cotidiana, ampliam desigualdades e testam as instituições de proteção. O comentário de Orsini funciona aqui como um espelho do nosso tempo, uma chamada para olhar para além dos rostos e buscar as tramas que sustentam o poder, a impunidade e a apatia coletiva.
Ao leitor cabe, como sempre, o gesto crítico de decodificar: por que certezas públicas tão polarizantes são naturalizadas? Como a justiça lida com os danos que a tecnologia e a desigualdade social produzem? E em que medida as decisões das potências globais moldam os humores e as prioridades das sociedades que delas dependem? São perguntas que, mais do que manchetes, merecem sequências e cortes cuidadosos — como em um bom roteiro que persiste na memória.






















