Por Chiara Lombardi — No circuito berlinense que tenta se reequilibrar, surge com delicada insistência um tema que parece um eco cultural: a busca por identidade quando a história e as escolhas de vida a colocam em xeque. É essa a corda sensível que percorre Nina Rozà, do filme da diretora Geneviève Dulude-de Celles.
O núcleo dramático gira em torno do curador de arte Mihail (interpretado por Galin Stoev), convocado do Canadá à sua terra natal, a Bulgária, para avaliar se uma menina de apenas oito anos — uma pintora prodígio (papel de Sofia Stanina) — é realmente um talento nato ou simplesmente uma fraude. Esse enquadramento inicial funciona como um dispositivo narrativo para desmontar o que vemos à superfície: perguntas sobre valor, autenticidade e aparato institucional no mundo da arte.
Porém, o filme evita o caminho óbvio da investigação técnica. O verdadeiro conflito vem quando Mihail é forçado a confrontar o roteiro oculto da sua própria vida — um corte radical com as raízes que foi cultivado vinte e oito anos antes, quando emigrou com a filha recém-nascida após a morte da esposa. A jornada de avaliação transforma-se, então, numa viagem de retorno à língua deixada de lado, ao universo camponês das tradições e aos laços familiares que pareciam apagados pela distância.
É notável como a presença daquela jovem artista reconfigura o protagonista: não apenas pela admiração profissional, mas como um espelho do tempo que revela memórias, feridas e um orgulho que havia sido adormecido. A criança, com sua recusa em abandonar o local para seguir carreira no exterior, desafia o mito moderno de que o sucesso exige deslocamento. Em vez de aceitar automaticamente a narrativa da migração como sinônimo de progresso, ela reivindica uma ética de pertencimento.
Em termos semióticos, Nina Rozà trabalha com contrastes sutis — entre cidade e campo, entre língua materna e idiomas adotados, entre instituições e práticas populares. A diretora Geneviève Dulude-de Celles não privilegia a grandiosidade formal; prefere a observação quase documentarista que permite ao espectador escutar as pequenas fissuras nas relações humanas. É um filme que pede reflexão: quem escreve a história de um artista — o mercado, o curador, ou a própria comunidade onde a obra nasce?
No conjunto, a obra aparece como um comentário sobre o tempo presente: a busca por identidade torna-se um processo de reescrita, onde a arte atua como linguagem que reconcilia memórias com possibilidades futuras. Para quem observa o cinema como reflexão social, Nina Rozà confirma que o entretenimento pode ser um espelho do nosso tempo, revelando o roteiro oculto que sustenta escolhas individuais e coletivas.
Exibido em Berlim, o filme reafirma que a emigração não é apenas uma mudança geográfica, mas uma mutação da memória e da língua — e que voltar a olhar para as próprias raízes pode ser, paradoxalmente, o gesto mais radical de criação.
Data da crítica: 19 de fevereiro de 2026






















