Roger Allers, uma das vozes criativas que definiram o chamado Rinascimento Disneyano, morreu no dia 17 de janeiro, aos 76 anos. A confirmação veio por um porta-voz da Disney Animation: o cineasta e animador faleceu em sua casa em Santa Monica após uma breve enfermidade.
Nascido em 29 de junho de 1949 em Rye, Nova York, Allers cedo descobriu a paixão pela animação. Formado em belas artes pela Arizona State University, construiu uma carreira longa e influente que o levou a trabalhar em alguns dos títulos mais emblemáticos da história do entretenimento animado.
O grande marco de sua trajetória foi, sem dúvida, a co‑direção de O Rei Leão (1994), ao lado de Rob Minkoff, para os estúdios Walt Disney Animation. Filme‑fenômeno, a produção arrecadou cerca de 979 milhões de dólares em sua primeira passagem pelos cinemas, tornando‑se um dos maiores sucessos daquele ano e um ícone da discografia visual da Disney.
Mas a história de Allers vai além desse título monumental. Ele atuou como autor e animador em clássicos como A Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Aladdin, Oliver & Company e Basil, o Superdetetive (conhecido também como Basil l’investigatopo). Antes mesmo de a computação gráfica se tornar onipresente, participou do desenvolvimento de Tron (1982), um exemplo precoce do encontro entre cinema e tecnologia — um pequeno ensaio sobre como a técnica remodela a narrativa.
Em 1998, Allers adaptou, ao lado de Irene Mecchi, o roteiro do musical de O Rei Leão para a Broadway, trabalho que lhe rendeu uma indicação ao Tony Award de melhor libreto. A transposição do desenho para o palco ampliou o alcance cultural de uma história que virou espelho coletivo: a mesma fábula repensada em outros códigos artísticos.
No campo dos prêmios, sua carreira também teve reconhecimento: em 2006 recebeu uma indicação ao Oscar pelo curta‑metragem animado A Pequena Vendedora de Fósforos (The Little Matchgirl). No mesmo ano, co‑dirigiu para a Sony Pictures o longa de animação Boog & Elliot – A caça de amigos (Open Season).
Em 2015, Allers escreveu e dirigiu The Prophet, adaptação animada da obra de Kahlil Gibran produzida por Salma Hayek — mais uma prova de sua inclinação para projetos que cruzam fronteiras entre literatura, espiritualidade e imagem em movimento.
As mensagens de pesar se multiplicaram. Rob Minkoff, seu parceiro em O Rei Leão, lembrou no Instagram que é difícil assimilar a perda repentina: eles almoçaram recentemente e Allers parecia bem. Minkoff ressaltou que a experiência de criar o filme forjou uma amizade e uma proximidade que sobreviveram ao próprio set.
Bob Iger, CEO da Disney, definiu Allers como «um visionário criativo, cujas extraordinárias contribuições à Disney viverão por gerações». É uma maneira institucional de nomear aquilo que, na prática, Allers deixou: um acervo de imagens e emoções que continuam a operar como um roteiro oculto da memória coletiva.
Ao olhar para sua obra, percebe‑se que Roger Allers não apenas dirigiu filmes; ele ajudou a compor o vocabulário simbólico de várias gerações. Como quem revisita um filme premiado em uma sala de cinema antiga, seu legado nos convida a reler o presente à luz das histórias que nos moldaram.
Em nome da arte da animação, restam as imagens, as músicas e a sensação de que, em tela grande, o tempo pode ser reformatado — e que alguns criadores conseguem, por meio de sua sensibilidade, abrir janelas que permanecem iluminadas por muito tempo.
















