Giorgio Gosetti, crítico cinematográfico e figura-chave nos bastidores dos grandes festivais europeus, morreu aos 70 anos. Veneziano de nascimento, Gosetti foi uma presença silenciosa mas decisiva no cenário do cinema italiano nas últimas décadas, um daqueles raros observadores cujo trabalho moldou o roteiro institucional da cultura cinematográfica.
Nos primeiros anos da década de 1980, Gosetti esteve entre os responsáveis pelo relançamento da Mostra del Cinema di Venezia, apoiando direções como as de Carlo Lizzani e Gian Luigi Rondi, e mantendo uma colaboração estreita com Gillo Pontecorvo. Essa atuação não foi apenas técnica: foi um reframe da visibilidade italiana no circuito internacional, como se alguém reposicionasse um espelho histórico para que o reflexo do cinema nacional pudesse finalmente dialogar com o mundo.
Em 2004, consolidando uma visão editorial e curatorial própria, fundou as Giornate degli Autori como uma seção colateral e autônoma da Mostra — um espaço pensado para dar voz a autores e projetos que questionam o centro da indústria. Gosetti dirigiu essa seção por anos e permaneceu dedicado a ela até seus últimos dias, reafirmando que festivais são menos vitrines e mais palcos de memória e negociação estética.
Antes disso, em 1991, deu vida ao Courmayeur Noir in Festival, evento nascido de sua paixão pelo giallo e pelo polar, gêneros que exploram o lado mais sombrio da narrativa e da condição humana. Por muito tempo dirigiu o festival, transformando-o num verdadeiro laboratório para a investigação do crime e do suspense como espelhos sociais.
Academicamente, Gosetti compartilhou sua experiência como professor de Organização de eventos cinematográficos e audiovisuais no curso de mestrado do DAMS de Bolonha, formando e influenciando gerações de organizadores e curadores. Também deixou uma produção crítica significativa: publicou ensaios sobre figuras como Marguerite Duras, Luigi Comencini, Alfred Hitchcock, Carlo Di Carlo, Allan Dwan e Sydney Pollack, trabalhando sempre na interseção entre análise textual e contexto institucional.
O falecimento de Gosetti marca a perda de um operador cultural cuja trajetória era menos centrada na celebridade e mais no tecido que sustenta a cena cinematográfica: festivais, ensino, curadoria e crítica. Seu legado é um mapa de escolhas curatoriais que continuam a orientar o modo como olhamos para o cinema contemporâneo — o roteiro oculto da nossa memória coletiva.
Os funerais serão celebrados no sábado, 7 de março, às 15h, na igreja de Santa Teresa D’Avila, em Corso d’Italia 37, Roma. A comunidade cinematográfica italiana e internacional se prepara para despedir-se de um homem que fez do ofício de programar e pensar filmes um gesto de responsabilidade cultural.
Em respeito à trajetória de Gosetti, é necessário ler sua passagem não apenas como um obituário, mas como um convite a investigar os espaços institucionais onde se decide o que será preservado como obra e o que será esquecido. Em outras palavras: seu trabalho nos lembra que todo festival é, também, uma escrita da memória.






















