Frederick Wiseman morreu nesta segunda-feira, 15 de fevereiro, aos 96 anos. A informação foi divulgada pela sua produtora, Zipporah Films, em comunicado conjunto com a família. Figura central do documentário contemporâneo, Wiseman deixou uma obra que funciona como um verdadeiro espelho do nosso tempo, um roteiro oculto que expõe as engrenagens das instituições.
Nascido em 1º de janeiro de 1930 em Boston, Wiseman teve um percurso que contrasta com a imagem clássica do diretor autodidata: formado em direito em Yale e, por um período, professor na Boston University, seu encontro definitivo com a câmera começou durante dois anos em Paris, onde registrou em 8mm a vida na capital francesa.
De volta aos Estados Unidos, trabalhou na produção do filme de Shirley Clarke, The Cool World, que misturava ficção e documentário ao retratar a vida em um gueto negro. Foi essa experiência que o convenceu de que poderia dirigir seus próprios filmes. Em 1967 lançou Titicut Follies, seu primeiro longa, um documento cru sobre a rotina em um hospital psiquiátrico para detentos no Massachusetts. O impacto foi tamanho que o Estado pressionou pela proibição do filme nos Estados Unidos por 25 anos, alegando violação de privacidade dos pacientes.
Desde então, Wiseman consolidou-se como mestre do cinema-verité, mantendo um ritmo impressionante: quase um longa por ano ao longo de mais de cinco décadas. Sua estética é reconhecível e rigorosa — câmera próxima às pessoas, ausência de voz off, entrevistas explícitas, trilha musical manipulada ou iluminação encenada. “O que mais me interessa é registrar o comportamento humano em diferentes situações”, disse ele em entrevista à AFP, em 2017, em Paris, cidade na qual passou parte dos anos desde o início dos anos 2000.
O corpo de trabalho de Wiseman soma cerca de cinquenta documentários, alguns de várias horas, iniciados nos Estados Unidos e ampliados depois para a França. Ele instalou sua câmera em instituições diversas, transformando locais aparentemente banais em cenas reveladoras: escolas (High School, At Berkeley), serviços sociais em Nova York (Welfare), um grande armazém (The Store), hospitais (Hospital, Near Death), complexos de habitação pública (Public Housing) e até espaços de alta cultura, como o balé e a ópera (La danse, le ballet de l’opéra de Paris, La comédie française ou l’Amour joue).
Mais do que um cronista institucional, Wiseman foi um tradutor cultural: seu documentário não apenas registrava, mas reconfigurava a forma como vemos organizações, políticas e pessoas. Há uma semiótica do viral antes mesmo da palavra existir em seu trabalho — cenas que reverberam porque expõem o lugar comum de certas estruturas sociais. Filmar sem intervenção didática foi o modo que Wiseman encontrou para provocar perguntas insistentes sobre responsabilidade, dignidade e poder.
Seus filmes influenciaram gerações de realizadores e ativistas, não por oferecer respostas fáceis, mas por insistirem na observação paciente. Como um crítico que prefere a lente ao editorial, Wiseman entregou-nos um mapa preciso de instituições que moldam e, por vezes, esmagam vidas. Sua morte marca o fim de uma era do documentário, mas deixa um legado vivo: uma filmografia que continua a funcionar como um cenário de transformação, um convite para reavaliarmos o que aceitamos como normal.
Em tempos em que as narrativas públicas se tornam cada vez mais fragmentadas, o trabalho de Frederick Wiseman permanece como um lembrete de que o cinema pode ser ferramenta de conhecimento — e que observar profundamente é, muitas vezes, a forma mais radical de intervenção.






















