“Chi salva una vita salva il mondo”. Este é o mote que atravessa Morbo K, a nova minissérie evento da Rai 1, exibida em duas noites, nos dias 27 e 28 de janeiro de 2026, em coincidência com o Dia da Memória. Dirigida por Francesco Patierno, a produção recria uma página menos conhecida, porém potente, da história italiana: como um grupo de médicos do hospital Fatebenefratelli, na Isola Tiberina, arquitetou uma farsa médica para proteger dezenas de judeus da deportação nazista.
O cerne da narrativa é a invenção do chamado Morbo K — uma doença fictícia cuidadosamente descrita como altamente contagiosa e letal — que transformou um leito de hospital num refúgio. O gesto dos médicos não foi apenas um ato médico, mas um reframe moral: um roteiro oculto de resistência civil que mostra como a prática médica pode virar, por um instante decisivo, garantia de vida e de memória.
Roma, setembro de 1943. O comandante das SS na cidade, o colonnello Kappler, impõe um tributo em ouro à comunidade judaica — cinquenta quilos — sob a ameaça de deportação. Enquanto alguns desconfiam do jogo de chantagem, o professor Prati, diretor do Fatebenefratelli, percebe a intenção real dos nazistas e age: transfere famílias judias para um ambiente hospitalar protegido. Para manter os soldados à distância, inventa um vírus de grande transmissibilidade, o Morbo K, argumentando que quem apresentar sintomas deve ser isolado para conter a epidemia. A farsa, por um tempo, cumpre sua função e mantém os perigos fora da ilha.
Dentro desse microcosmo de hospital e esconderijo, floresce uma história de afetos e escolhas. A jovem artista Silvia Calò é uma das protegidas por Prati; ela se apaixona por Pietro Prestifilippo, assistente do diretor, apesar do compromisso familiar dele com outra mulher. O amor, a dedicação profissional e a urgência histórica entrelaçam-se num roteiro onde cada decisão carrega peso ético e existencial — como num plano de cinema em que um close revela um mundo inteiro.
Mesmo assim, a máquina da ocupação segue sua lógica brutal. No dia 16 de outubro de 1943, embora os cinquenta quilos de ouro já constassem nas cofres nazistas, Kappler ordena o rastreamento do gueto. Soldados conseguem embarcar 1.259 pessoas em trens com destino aos campos de extermínio — entre elas a família Calò. As últimas horas em Roma condensam o que resta de esperança, coragem e dor para Silvia, Pietro e o professor Prati.
Como analista cultural, vejo em Morbo K mais do que uma recriação de eventos: a minissérie funciona como um espelho do nosso tempo, lembrando que a memória se faz nas pequenas ações cotidianas. O episódio do Fatebenefratelli é uma semiótica da resistência — um gesto que transforma conhecimento técnico em escudo humanitário. É uma narrativa que nos convida a observar o porquê por trás dos atos: como o cuidado pode ser arma contra a barbárie e como a arte de contar histórias mantém viva a responsabilidade histórica.
Morbo K não é um conto apenas sobre salvamento; é um estudo sobre a interseção entre ética profissional, amor e política num cenário de transformação. Ao assistir, reconhecemos novamente que o entretenimento pode ser porta para a reflexão e que certas histórias, quando reencenadas, nos forçam a olhar além da superfície e a questionar o roteiro que herdamos.





















