Por Chiara Lombardi — Em mais um capítulo que mistura glamour perdido e fragilidade humana, Mickey Rourke, ícone do cinema dos anos 1990, enfrenta a ameaça de despejo de sua casa em Los Angeles. O ator de 73 anos teria acumulado cerca de US$59.100 em aluguel atrasado, segundo notificação enviada pelo proprietário — e para evitar a remoção do imóvel foi lançado um crowdfunding na plataforma GoFundMe.
A campanha, criada por Liya-Joelle Jones — amiga e membro da equipe que acompanha o ator — alcançou mais de US$52 mil em menos de 24 horas, aproximando-se do valor da dívida. O objetivo declarado é chegar a US$100 mil, para cobrir custos imediatos relacionados à moradia e permitir que Rourke tenha estabilidade enquanto lida com esse período difícil.
O texto de apresentação da arrecadação ressalta algo que parece quase uma cena de cinema, mas é dolorosamente real: a fama não blinda ninguém contra a precariedade. “É a história de alguém que deu tudo ao seu trabalho, correu riscos e pagou um preço real”, diz a descrição. “Talento não garante estabilidade. O que resta é uma pessoa que merece dignidade, um teto e a chance de se reerguer.”
Trajetória e ironias do destino acompanham a biografia de Rourke como um roteiro com altos e baixos: estrela em filmes como 9½ Weeks, depois boxeador em cena e na vida real, obteve aclamação tardia com The Wrestler (2008), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar e um Globo de Ouro. Entre esses picos, porém, vieram também dependência, problemas de saúde e questões judiciais — um percurso que espelha, em microcosmo, o reframe da celebridade na era contemporânea, em que o brilho hospitaliza vulnerabilidades públicas.
Nos últimos episódios polêmicos, Rourke foi expulso de uma edição do reality show britânico Big Brother VIP em abril, após proferir comentários considerados homofóbicos. Agora, diante da possibilidade de perder sua residência, a campanha de arrecadação tenta transformar atenção e sentimento em apoio prático: “Qualquer doação, independentemente do valor, fará a diferença”, afirmou Liya-Joelle.
A rapidez com que fãs e admiradores se mobilizaram — somando em poucas horas um montante próximo ao débito — revela o paradoxo do nosso tempo cultural: a celebridade continua sendo um espelho que reflete empatia e escárnio, bem como solidariedade e consumo de escândalo. A cena atual convida a uma reflexão mais ampla sobre redes de proteção social e as contradições de uma indústria que celebra e descarta com igual força.
Enquanto isso, a campanha busca oferecer a Mickey Rourke algo que nem os prêmios garantiram por si sós: um espaço estável para se recompor. Se, por um lado, a narrativa da queda e da recuperação faz parte de seu imaginário público, por outro, a mobilização em torno do ator demonstra que a cultura pop ainda pode ser também um agente de cuidado — mesmo que tardio.
Data do fato/reportagem: 5 de janeiro de 2026.































