Por Chiara Lombardi — Em seu mais recente exercício de estilo, Josh Safdie entrega Marty Supreme, um filme que atravessa gêneros e expectativas como se reescrevesse o roteiro oculto do cinema contemporâneo. No centro desse espelho do nosso tempo está Timothée Chalamet, com 30 anos, que interpreta o enigmático Marty, personagem inspirado nas lendas do tênis de mesa e nas íncolas do sonho americano. Pelo papel, Chalamet conquistou um Golden Globe como protagonista e passou a figurar entre os favoritos ao Oscar — um triunfo que, no entanto, não anula as ambivalências do filme.
O crítico Alberto Mereghetti atribuiu ao longa o voto 6,7, leitura que convida a um olhar menos celebratório e mais interrogativo. Marty não é apenas um atleta: é um anti‑herói devorado pela ambição, um personagem tão consciente de seus talentos quanto incapaz de moderar sua própria arrogância. Safdie, nesse sentido, parece menos interessado em uma biografia fiel e mais em usar a figura do jogador como pretexto para «brincar» com o cinema — testando limites de linguagem, público e gênero.
O filme remete à tradição dos Safdie irmãos — com ecos do que Benny já explorou em obras como The Smashing Machine e do que os dois dirigiram em conjunto em Diamanti grezzi (Uncut Gems) — e chega embalado pelo selo A24, recém‑forte em promover um cinema que desafia as regras consolidadas dos grandes estúdios. Há uma sensação de provocação controlada: cada cena parece arquitetada para deslocar a empatia do espectador, forçando um confronto entre fascínio e repulsa.
A proximidade com a figura real de Marty Reisman dá ao roteiro uma base histórica, mas Safdie prefere a estilização ao registro documental. O Marty da tela reúne traços do verdadeiro jogador — a língua afiada, a sede por risco, a inclinação para as apostas — e os amplia até transformar o protagonista em um símbolo: o mito do self‑made man post‑bélico que se choca com a dureza da realidade. Essa transformação é, ao mesmo tempo, a força e a limitação do filme.
Chalamet entrega uma performance calibrada, intensa, onde a confiança extrema do personagem beira ao excessivo. Diferente do trágico Adam Sandler de Diamanti grezzi, aqui falta aquela dimensão de queda inevitável que conferia humanidade dolorosa ao anti‑herói; em Marty Supreme, o protagonista parece, às vezes, a cópia perfeita da ambição sem a contrapartida do sofrer redentor. O resultado é um retrato que fascina e irrita: admiração pela audácia da construção, mas também a sensação de um vácuo emocional em alguns momentos.
Do ponto de vista formal, Safdie «joga» com o cinema: atravessa gêneros, fragmenta o tempo narrativo e mistura humor ácido a momentos de desconforto quase físico. Esses deslocamentos tornam o filme um laboratório de possibilidades — um reframe da realidade onde o esporte se transforma em metáfora social. Ainda assim, a aposta nem sempre se sustenta: a intenção de ultrapassar «todas as barreiras» por vezes se confunde com a vontade de impressionar sem aprofundar.
Em suma, Marty Supreme funciona como um espelho sofisticado do nosso cenário cultural: é provocador, visualmente inventivo e narrativamente audacioso, mas permanece ambíguo quanto à sua capacidade de emocionar plenamente. O voto de Mereghetti, 6,7, reflete essa ambivalência — um reconhecimento da ambição artística com reservas sobre a coerência dramática.
Para quem busca um filme que seja menos consolo e mais desafio, Marty Supreme merece ser visto como um ponto de convergência entre o novo cinema independente e as grandes questões identitárias que o entretenimento hoje tenta traduzir — o roteiro oculto da sociedade exibido em plena luz da tela.






















