Por Chiara Lombardi — Quando a memória pública se transforma em cenário, nasce um retrato que é também um espelho do nosso tempo. Em Portobello, série em seis episódios assinada por Marco Bellocchio e disponível a partir de 20 de fevereiro na HBO Max, a história de Enzo Tortora é reconstituída com a densidade de um interrogatório moral: a trajetória de um apresentador amado e, ao mesmo tempo, vítima de uma das mais clamorosas malagiustiçaes italianas.
Bellocchio parte de uma imagem fulgente, quase cinematográfica — um homem saindo assombrado de uma caserna, cercado por fotógrafos e repórteres. Há, nesse gesto, o roteiro oculto da sociedade: a promessa de anonimato quebrada por uma regia que prepara o espetáculo da humilhação. Tortora, vivido por Fabrizio Gifuni, não protagoniza um filme de ação, mas um incubo sem despertar, uma sequência sem corte onde ele repete, com crescente desespero, a frase dirigida ao procurador: “Sou inocente, não está visível?”.
A série não se apresenta como panfleto político. Bellocchio foi categórico: a produção foi concebida antes das discussões acirradas sobre o referendo da justiça, e a data de lançamento, 20 de fevereiro, é uma homenagem — simbólica — ao retorno de Tortora ao programa Portobello, marcado pela frase que o consagrou: “Dove eravamo rimasti?”.
Ao transformar documentos, cartas e depoimentos em ficção, o diretor manteve contato direto com as pessoas que ficaram: conversou com a filha Gaia Tortora e com a companheira do apresentador, Francesca Scopelliti, evitando interferências e preservando zonas de verdade comprovada. Mas Bellocchio também reconhece espaços escuros onde a imaginação precisa entrar — é ali que o autor corre riscos e acrescenta sombras à narrativa, como se moldasse um fantasma capaz de traduzir traições sociais tão profundas quanto as que marcaram o caso Moro.
O retrato que emerge não é unívoco. Tortora foi popular entre 28 milhões de telespectadores e, ao mesmo tempo, recebeu desconfiança da esquerda e da elite intelectual. Havia nele um tom de cinismo, uma “antipatia de sucesso”, e isso o tornou vulnerável quando a máquina judiciária e midiática se mobilizou. A série lembra episódios documentados — desde a curiosa confraternização dos jornalistas após a primeira condenação até o artigo de Enzo Biagi que se perguntou: “E se Tortora fosse inocente?” — e os coloca em cena para que o espectador perceba como o julgamento público é muitas vezes uma coreografia de exclusão.
Enquanto a ficção desliza entre fatos verificados e invenções necessárias, o trabalho de Bellocchio se instala como uma análise do impacto cultural do espetáculo do julgamento. A história de Tortora, ao ser recontada agora, funciona como reframe da realidade: não é apenas sobre um homem preso por erro, mas sobre como uma sociedade aceita — ou instrumentaliza — o silêncio e o olhar cúmplice. Portobello, assim, se configura como um espelho que refrata as mudanças de confiança entre mídia, instituições e público.
Ver a trajetória de Enzo Tortora nas mãos de Bellocchio é também assistir ao encontro entre memória e imaginação: um eco cultural que convoca o espectador a se perguntar não apenas o que aconteceu, mas por que aquelas feridas continuam a ecoar. Em vez de reduzir o caso a uma peça de tribunal, a série insinua que a verdadeira sentença foi social — e que o país, por vezes, prefere o espetáculo à elaboração histórica.
Portobello chega com a força de um testamento cinematográfico: uma narrativa que não se contenta com dados, mas que olha para os deslocamentos de identidade e responsabilidade coletiva. É um convite a revisitar a história com olhos críticos — e a reconhecer que a justiça às vezes falha quando o público e a imprensa substituem o veredito pela platéia.






















