Por Chiara Lombardi — Em um refrão que mistura memória e cena pública, Liza Minnelli quebra o silêncio sobre a sua participação na cerimônia do Oscar de 2022. No trecho de suas memórias Kids, Wait Till You Hear This!, com lançamento nos EUA marcado para 10 de março, a atriz e cantora relata ter sido “inexplicavelmente obrigada” a usar uma cadeira de rodas para subir ao palco — uma decisão que, segundo ela, transformou um momento potencialmente celebratório num episódio de desconforto.
Minnelli, hoje com 79 anos e vencedora do Oscar de melhor atriz por Cabaret (1973), havia sido convidada para anunciar o prêmio mais aguardado da noite: o de melhor filme. Ao lado de Lady Gaga, ela anunciou a vitória de CODA – I Segni del Cuore (filme dirigido por Sian Heder), recebendo uma ovação em pé do público. Na memória coletiva, a cena foi celebrada como uma das mais emocionantes da cerimônia — Gaga chegou a declarar que Minnelli era “uma verdadeira lenda do showbusiness”.
Contudo, o extrato divulgado pela revista People revela outra camada dessa imagem pública. No livro, Minnelli descreve que os organizadores deram-lhe como opção subir ao palco em cadeira de rodas ou renunciar à participação, justificando a medida por motivos de segurança e por sua idade, com receio de que ela pudesse escorregar de uma poltrona de diretor. “Era absurdo”, escreve a artista, apontando que a posição mais baixa dificultou a leitura do teleprompter e a deixou suscetível a tropeçar nas palavras durante o anúncio.
Em 2022, a cantora e atriz enfrentava fortes dores nas costas; fontes ouvidas pelo The Hollywood Reporter haviam explicado que a escolha visava proteger a saúde da estrela. Ainda assim, para Minnelli, a imposição deixou claro um desconforto maior: a sensação de que sua agência sobre a própria imagem havia sido reduzida a um dispositivo de segurança.
Há, porém, uma nota de humanidade na lembrança. A própria Lady Gaga ter-se-ia mantido ao seu lado no palco, segurando sua mão e sussurrando: “Estou aqui com você”. Após a cerimônia, Gaga a teria visitado no camarim para checar seu estado. “Eu disse a ela simplesmente que sou uma grande fã”, lembra Minnelli, resgatando o afeto que atravessou o episódio.
Como observadora cultural, é impossível não ler esse acontecimento como um pequeno espelho do nosso tempo: o palco público como cenário de transformação, onde a semiótica do viral convive com decisões administrativas que toca(m) a dignidade pessoal. A imagem de uma diva — fruto de outra era do entretenimento — sendo reposicionada por razões de segurança revela um roteiro oculto sobre idade, visibilidade e cuidado institucional.
As memórias de Liza ampliam, assim, o debate sobre autonomia e representação nas cerimônias públicas, lembrando que nem toda ação corretiva é, de fato, benevolente. No cinema e na vida, há sempre uma edição posterior possível; resta saber quem segura a tesoura.





















