Por Chiara Lombardi — Em seu novo filme, Gabriele Muccino volta ao terreno familiar das relações adultas com um drama que é, ao mesmo tempo, espelho e refrão do nosso tempo. Le cose non dette desembarca como uma pequena antologia afetiva que retoma a reflexão sobre laços, culpa e desejos interrompidos já explorada em A casa tutti bene (2018) — que virou série entre 2021 e 2023 — e em Gli anni più belli (2020).
Adaptado do romance Siracusa, de Delia Ephron, a obra desloca o cenário original para uma Tangeri escaldante: um porto sul do Mediterrâneo que funciona como palimpsesto cultural, tela onde se desenrola o confronto entre casais italianos de meia-idade. Ali, sob o calor e o exotismo aparente, Muccino constrói um ring emocional onde as convenções modernas desnudam sua fragilidade.
No centro está o casal Carlo e Elisa — interpretados por Stefano Accorsi e Miriam Leone — figuras de uma neoburguesia emocionalmente empobrecida. Carlo, professor de filosofia e escritor bloqueado, vive a infidelidade como sintoma de uma aridez interior. Elisa, jornalista de brilho já em declínio, narra em off o fluxo de consciências que orienta o filme. Amigos do casal, Anna (Carolina Crescentini) e Paolo (Claudio Santamaria), completam o quarteto: ela, mãe sufocante; ele, restaurateur que aparenta satisfação.
A partida do equilíbrio acontece quando surge Blue (Beatrice Savignani), jovem aluna e amante de Carlo, grávida e intrusa que provoca reações em cadeia. Margherita Pantaleo vive Vittoria, a voz adolescente que, na margem, observa e sofre as microtraças dos adultos. Os segredos, as mentiras e as justificativas emergem como marés: parecem controláveis, mas revelam correntes capazes de arrastar tudo.
Formalmente, Le cose non dette se move com ritmo acelerado, quase com direção “americana”, e se alimenta do contraste entre a superfície turística do suk tangerino e o colapso íntimo dos personagens. A voz de Elisa guia o espectador por um mosaico de diálogos cortantes, reconciliações às pressas e confissões que frequentemente chegam tarde demais.
O filme não se limita a narrar uma crise de casal: é um estudo de personagens que ilustra o “roteiro oculto” de uma geração que aprendeu a racionalizar o afeto até torná-lo deficitário. Muccino filma a falha como um eco cultural — a replicação de pequenas traições, de omissões que se acumulam, transformando desejo em necessidade e, por fim, em desastre emocional.
Do meu ponto de vista, há naquele quadro tangerino um encanto pictórico e, ao mesmo tempo, uma ironia trágica: o cenário exótico serve tanto para camuflar quanto para amplificar as verdades não ditas. A película funciona como um espelho do nosso tempo, onde a busca pela autojustificação cria buracos narrativos que só a coragem de encarar a própria vulnerabilidade poderia preencher.
Le cose non dette não traz respostas fáceis, mas pede que percebamos o preço das silêncios entre nós. Para quem acompanha a trajetória de Muccino, é mais um capítulo sobre afetos à deriva; para o público, é um convite a escutar o que fica — perigosamente — por dizer.






















