Por Chiara Lombardi — A terceira semana de janeiro de 2026 esconde um pequeno espelho do nosso tempo: produções que reescrevem passado e presente, jogando luz sobre identidades, poderes e espetáculos. Entre o universo expandido de Game of Thrones, o thriller financeiro com Sophie Turner e a fábula distópica de Ryan Murphy, vale a pena observar não só o que chega às telas, mas o porquê cultural por trás dessas escolhas.
A Knight of the Seven Kingdoms chega como um prequel íntimo ao universo do Trono de Espadas. Situada cerca de cem anos antes dos eventos de Game of Thrones e a meio caminho temporal entre a série original e House of the Dragon, a produção adapta as Tales of Dunk and Egg de George R.R. Martin. Em seis episódios de aproximadamente meia hora cada, a narrativa acompanha as viagens de Ser Duncan “Dunk” e de seu jovem escudeiro Egg/Aegon Targaryen — um road‑movie medieval repleto de torneios, percalços e encontros que preferem a intimidade dos personagens às grandes tramas de poder. No elenco, Peter Claffey e Dexter Sol Ansell dão vida à dupla. A série está disponível desde domingo, 18 de janeiro, na HBO Max, recém-chegada ao catálogo italiano.
Steal – La Rapina aposta no thriller de tensão claustrofóbica com uma veia social. Sophie Turner, conhecida do grande público por interpretar Sansa Stark, vive Zara, funcionária de uma gestora de investimentos chamada Lochmill Capital. O que começa como uma aparente assalto aos escritórios se transforma em um intricado jogo de enganos, com milhões de libras — e as pensões de muitas pessoas — no centro do enredo. A série, em seis episódios, estreia na quarta-feira, 21 de janeiro, no Amazon Prime Video. O enredo funciona como um espelho moderno das nossas ansiedades sobre economia, confiança institucional e as narrativas que nos vendem segurança.
The Beauty, assinada por Ryan Murphy, mistura mistério, horror e sátira num thriller sci‑fi ambicioso. A trama se precipita quando supermodels começam a morrer em circunstâncias inexplicáveis; a investigação é conduzida pelos agentes do FBI Madsen (interpretado por Evan Peters) e Bennett (Rebecca Hall). Aos poucos, surge a hipótese de um vírus de transmissão sexual que transforma pessoas em versões hiper‑estilizadas de beleza — um comentário sobre a estetização forçada e as indústrias que lucram com corpos e desejo. A narrativa percorre capitais como Paris, Veneza, Roma e Nova York e traz um elenco que reúne nomes como Ashton Kutcher, Anthony Ramos e Jeremy Pope, além de participações de figuras do mundo da moda e do entretenimento. A série, escrita por Murphy em parceria com Matthew Hodgson e inspirada em quadrinhos homônimos, convida a refletir sobre a semiótica do belo e os riscos de uma utopia estética.
Além desses títulos de maior projeção internacional, a semana reserva estreias mais leves e de gênero: na Netflix, chega Passione sul Ghiaccio, e no canal Giallo estreia Crociera con Delitto. Essas produções completam um cardápio variado que vai do espetáculo pop ao entretenimento de nicho, reforçando como as plataformas hoje compõem um mosaico cultural que dialoga com memórias pessoais e coletivas.
Como observadora do zeitgeist, vejo nesses lançamentos um roteiro oculto: a necessidade de revisitar origens (no caso de Westeros), a vontade de expor estruturas de poder econômico (em Steal) e a fascinação contemporânea com a estética como tecnologia de controle (The Beauty). O entretenimento, portanto, não é apenas distração — é um barômetro das inquietações do nosso tempo, um reframe da realidade que nos permite, por um tempo, ensaiar perguntas que o cotidiano muitas vezes reprime.
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