Sou Chiara Lombardi, e quando o cinema volta os holofotes para figuras-ícone da indústria e da ciência, não estamos apenas assistindo a histórias: percebemos os reflexos de um tempo. Nesta sexta-feira, 23 de janeiro, o público italiano poderá revisitar a figura de Ferruccio Lamborghini pelo olhar do cinema de grande público: às 21h20, a Rai 2 exibe em prima tv o biopic «Lamborghini – The Man Behind the Legend», escrito e dirigido por Bobby Moresco.
Apresentado em anteprima na Festa del Cinema di Roma em 2022, o filme propõe um retrato biográfico do fundador da marca que veio a ser sinônimo de velocidade, luxo e audácia mecânica. Mais do que narrar uma trajetória empresarial, o biopic tenta mapear o homem por trás da lenda: suas escolhas técnicas, os embates com a tradição automobilística e a ambição que moldou uma identidade industrial. É um roteiro que funciona como espelho cultural — a história de um empreendedor que transformou tratores e olhares críticos em um automóvel com assinatura própria.
Como analista cultural, vejo neste tipo de produção um duplo movimento: por um lado, a celebração de uma figura heroicizada; por outro, a chance de ler as tensões sociais e técnicas que o contexto pós‑guerra promoveu na Europa. Ferruccio Lamborghini não é apenas um nome numa grade de carros: é também um personagem que ajuda a compor o roteiro oculto da reconstrução italiana e da afirmação do design como linguagem de prestígio.
No mesmo 23 de janeiro, uma outra narrativa histórica ganha ar: chega online o trailer de «Operazione Batiscafo Trieste». A data não é casual — marca os 66 anos exatos da audaciosa descida do batiscafo Trieste na Fossa das Marianas, em 23 de janeiro de 1960. A produção, escrita e dirigida por Massimiliano Finazzer Flory, promete resgatar a mistura de ciência, coragem e visão pioneira que regeu essa expedição submarina.
O documentário terá apresentação em anteprima nos dias 6 e 7 de março no Cinema Ariston, em Trieste, antes de seguir em itinerância por Nápoles, Roma e Milão. A viagem não para por aí: ao final de março, está programada uma escala nos Estados Unidos, com projeções em Washington e Nova York — o mesmo deslocamento geográfico que o próprio batiscafo empreendeu, agora transformado em tráfego cultural.
Esses lançamentos, lado a lado, revelam algo sobre nosso Zeitgeist: há hoje um gosto por revisitar trajetórias fundadoras — tanto do asfalto polido quanto das profundezas oceânicas. Seja no brilho lustroso de um automóvel ou na invisibilidade azul do abismo, o cinema nos permite reframear memórias e entender por que certas figuras se mantêm enquanto ícones. Assistir a «Lamborghini – The Man Behind the Legend» antes de mergulhar no universo do batiscafo é, metaforicamente, percorrer dois polos da modernidade — o design visível e a ciência oculta — que juntos desenham o mapa da nossa tecnologia e ambição.
Se você procura uma sessão dupla que cruza indústria, ciência e mito, esta semana oferece esse roteiro em sessão contínua: o passado recontado como espelho do nosso tempo.






















