Por Chiara Lombardi — Em um cenário onde a memória se mistura com imagens que não querem calar, La Stanza di Mariana, de Emmanuel Finkiel, transforma o cinema em um espelho do nosso tempo. Adaptado do romance Fiori nelle tenebre de Aharon Appelfeld, o filme coloca no centro um vínculo improvável: o de um menino judeu de 12 anos e uma mulher que vive na margem da sociedade.
No papel do garoto, Artem Kyryk interpreta Hugo, que chega à casa de tolerância levando no corpo e na memória a violência da ocupação nazista na Ucrânia. É a mãe, interpretada por Julia Goldberg, que, usando as galerias das águas pluviais, o leva até Mariana — papel entregue com contornos humanos e trágicos por Mélanie Thierry — na esperança de que, escondido, o filho escape do destino que levou o pai.
O dispositivo narrativo de Finkiel não se limita ao confinamento físico: Hugo vive numa espécie de armário-ripostiglio onde, por fendas, observa tanto o que lhe foi arrancado quanto a existência cotidiana de Mariana. O diretor dá forma aos “fantasmas” da lembrança do menino — avós, tios, a amiga Anna — que não são meras projeções espectrais, mas pequenas cenas afetivas que lembram o público do que a guerra destrói além das estatísticas: ritualidade familiar, cuidados, celebrações.
Ao mesmo tempo, as fendas se transformam em janelas para uma outra vida, distante da farmácia do pai: os momentos de alegria, os acessos de violência e a precariedade cotidiana de Mariana se entrelaçam com a formação emocional de Hugo. É um reframe da realidade onde o espectador percebe como o íntimo e o político se atravessam — a história pessoal vira mapa para entender o contexto histórico.
Visualmente, o filme dialoga com a tradição cinematográfica que usa o olhar infantil como lente ética e estética — um recurso que amplia e dilata a percepção do trauma, sem deixá-lo reduzir-se a imagens chocantes. Em vez disso, La Stanza di Mariana privilegia a densidade da memória, mostrando que os traços do passado insistem em reaparecer, muitas vezes onde menos se espera.
Exibido pela distribuidora Movies Inspired, o filme entra em cartaz de terça-feira, 27 de janeiro — Giorno della Memoria / Dia da Memória — até quinta, 29 de janeiro. Essa janela de lançamento reforça o caráter do filme como peça de confronto com o passado e convite à reflexão coletiva.
Mais do que um filme sobre sobrevivência, La Stanza di Mariana é um estudo sobre os interstícios da experiência humana durante a guerra: o silêncio do esconderijo, os ecos de afeto, a violência que contamina relações e o modo como a memória insiste em narrar o inexorável. Como observadora do zeitgeist, reconheço aqui um filme que não se contenta em documentar: propõe uma leitura sensorial e moral do trauma, como se cada cena fosse um espelho quebrado que, ao ser remontado, nos obriga a ver o mundo de outro ângulo.
Para quem busca no cinema não só entretenimento, mas um espaço para interrogantes éticos e estéticos, La Stanza di Mariana oferece essa experiência — um roteiro oculto da sociedade que se faz visível no gesto de cuidar e no ato de esconder.






















