Por Chiara Lombardi — Hoje celebramos Joe Pesci, que completa 83 anos. Nascido em Newark em 9 de fevereiro de 1943, Pesci atravessa as décadas como um ator cuja presença na tela funciona como um espelho do nosso tempo — ora corrosivo, ora irônico — e cuja biografia familiar traça a linha direta entre a preservação da memória e o roteiro oculto da identidade imigrante.
Filho de Angelo Pesci, operário da General Motors e barista de origens torinesas, e de Maria Mesce, cabeleireira nascida em Aquilonia, na província de Avellino, Pesci carregou sempre consigo o eco cultural da Itália. “A Itália sempre esteve no meu coração”, disse ele em 1996 ao subir ao palco dos Telegatti — uma frase que conecta, sem artifícios, a intimidade afetiva ao estatuto público do artista.
A trajetória de Pesci é economia de gestos e explosões dramáticas: do humor inesquecível de Mamma, ho perso l’aereo (conhecido internacionalmente como Home Alone) às lâminas cortantes e magnéticas de Quei bravi ragazzi (Goodfellas), sua filmografia compõe um reframe da realidade que todos reconhecemos como cineasta do efeito. Em algum momento antes da fama, conta-se que chegou a trabalhar como barbeiro, uma profissão que reforça a imagem do artista enraizado na comunidade e na rotina cotidiana — o pequeno palco onde se ensaiam papéis de vida.
Pesci não é apenas um intérprete; é um dispositivo semiótico que traduz nervosismo urbano, humor e ética ambígua em personagens memoráveis. Essa presença explica por que seu trabalho reverbera tanto na cultura popular quanto no circuito crítico: ele é, ao mesmo tempo, a voz grossa do bairro e o ator premiado que se transformou em ícone.
Ao comemorar seus 83 anos, vale pensar menos nas celebridades como fenômenos isolados e mais como capítulos de uma narrativa coletiva. A ascendência de Pesci — entre o Piemonte de seu pai e a Campânia de sua mãe — é também a geografia íntima de muitos descendentes de imigrantes italianos nos Estados Unidos, uma cartografia afetiva que resiste à homogeneização cultural.
Como observadora, instigo o leitor a olhar além do bolo de aniversário e dos flashes: o que nos diz a carreira de Pesci sobre o modo como Hollywood absorve e transforma identidades? Sua biografia simples — Newark, barbearia, palco e tela — funciona como um microcosmo do século XX, em que migração, trabalho e representação se cruzam e se reescrevem diante de nossas câmeras.
Parabéns, Joe Pesci. Aos 83 anos, sua figura permanece um ponto de referência onde humor, violência e afeto se encontram: um verdadeiro espelho do nosso tempo.






















