Por Chiara Lombardi — Em uma conversa franca com a NPR, a atriz Jodie Foster, hoje com 63 anos, revelou um aspecto pouco comentado da sua infância de estrela: a indicação ao Oscar aos 12 anos por Taxi Driver (1976) não foi apenas um marco artístico, mas também uma espécie de escudo que a preservou de abusos sexuais que, décadas depois, vieram à tona como um problema estruturante em Hollywood.
Foster, que começou a atuar aos três anos entre comerciais, séries e filmes, descreveu como a sua precocidade e o reconhecimento precoce mudaram a dinâmica de poder ao seu redor. Ao atuar ao lado de nomes como Robert De Niro e Harvey Keitel, em um papel controverso — o de uma prostituta adolescente — ela atraiu atenção que, na visão da atriz, a colocou em outra categoria: aquela de alguém que tinha poder e, portanto, era “perigosa” demais para ser tocada.
“Havia um tipo de autoridade já aos 12 anos”, disse Foster. “Quando recebi a minha primeira indicação ao Oscar, passei a pertencer a um grupo de pessoas que tinham poder — eu seria perigosa de tocar. Eu poderia arruinar a carreira de alguém.” A observação abre um roteiro oculto sobre como reconhecimento público e status podem funcionar como formas de proteção contra predadores que se alimentam da vulnerabilidade.
Ao longo da entrevista, ela também falou das microagressões e da misoginia velada que toda mulher, em qualquer profissão, teme e experimenta. “Os predadores usam tudo que têm para manipular e dominar. É mais fácil quando a pessoa é jovem, sem poder”, explicou. A sua narrativa não romantiza a infância de astro: aponta que existem dois caminhos possíveis para quem cresce sob os holofotes. “Ou desenvolve-se uma resiliência e um plano de sobrevivência, ou desaba”, disse, descrevendo um dilema que lembra o enredo trágico de muitos prodígios — pensemos em nomes como Macaulay Culkin ou Britney Spears, ícones cujas histórias expõem a face sombria do estrelato precoce.
O testemunho de Foster é, por isso, um espelho do nosso tempo: revela como o próprio sistema de prestígio pode, paradoxalmente, ser uma forma de proteção dentro de um ambiente que historicamente permitiu abusos. A atriz — dona de uma carreira premiada (dois Oscar, múltiplos Golden Globe e Bafta, segundo sua entrevista) — lança uma luz sobre a complexidade das relações de poder na indústria do entretenimento, convidando a audiência a refletir sobre a semiótica do sucesso e sua capacidade de reconfigurar riscos.
Mais do que uma memória pessoal, a declaração de Foster funciona como um alerta e uma análise cultural: a fama precoce pode ser tanto um escudo quanto um fardo. O que importa, conclui a atriz, é reconhecer as dinâmicas predatórias e trabalhar para que nenhum jovem talento precise contar com uma indicação ao prêmio máximo para se manter ileso.






















