Hamnet é um filme que atua como um espelho do nosso tempo: um trabalho sobre perda, memória e a forma como a arte refrata a dor. Baseado no romance homônimo de Maggie O’Farrell (2020), a adaptação dirigida por Chloé Zhao reconstrói o final do século XVI em Stratford-upon-Avon e nos convida a olhar para o homem antes da lenda — Shakespeare antes do Bardo.
No centro desta narrativa está a união entre o jovem William (interpretado com nuances por Paul Mescal) e a enigmática Agnes (uma entrega sensível de Jessie Buckley). Ele, professor de latim, sonhador do teatro londrino; ela, mulher ligada à terra, criada como órfã e cercada por suspeitas de bruxaria. A química entre os dois constrói o núcleo familiar que atravessa a projeção do filme: a filha primogênita Eliza (Freya Hannan-Mills) e os gêmeos Hamnet (Jacobi Lupe) e Judith (Olivia Lynnes).
A narrativa não é uma biografia convencional: é antes um reframe emocional que explora “o roteiro oculto da sociedade” em torno do luto. Quando a peste — a devastadora peste bubônica — atinge a comunidade, a morte de Hamnet desencadeia uma cartografia íntima do sofrimento. O que Chloé Zhao dirige é menos uma sequência de acontecimentos do que um estudo da transformação do afeto: como a ausência redesenha vínculos, como a memória se converte em obsessão e como o cotidiano se fragmenta em silêncio.
Visualmente, o filme privilegia o corpo e o gesto. Zhao constrói cenas onde a pausa e o silêncio funcionam como pontuação dramática: o silêncio vira gramática para o peso da culpa, enquanto planos longos permitem que o espectador se torne cúmplice do luto. É a semiótica do viral aplicada ao íntimo — a doença externa que revira as feridas internas.
As interpretações são de destaque. Jessie Buckley oferece uma composição instintiva de Agnes, uma mulher aparentemente selvagem, cujo conhecimento da natureza e do corpo infantil parece profético. Paul Mescal aponta as contradições de um homem dividido entre a ambição e a responsabilidade familiar. Emily Watson, no papel de Mary, mãe de William, confere uma textura de solidariedade e resistência ao núcleo afetivo. As crianças, sobretudo Jacobi Lupe como Hamnet, dão verossimilhança e doçura ao drama.
Tematicamente, o filme explora a relação entre criação artística e perda. Antes de existir o dramaturgo celebrado, há um sujeito movido por inquietações e afetos que serão matéria-prima de futuros textos. A tragédia que golpeia a família é, na leitura do filme, o motor que transforma dor em memória duradoura — e memória em criação. Aqui reside a ambição do projeto: não reconstituir fatos para alimentar mitos, mas iluminar o que a perda faz com a imaginação.
Para quem busca um cinema que debate o tempo, o silêncio e a fidelidade aos afetos, Hamnet é um convite a observar o “eco cultural” de uma história pessoal que vira universal. A estética de Zhao, aliada à prosa poética da trama, produz sequências que permanecem como imagens fixas — pequenos tableaux que reverberam depois do corte final. É, em suma, um filme que pede atenção: não é entretenimento leve, mas um ensaio sobre como a vida transforma a arte e vice-versa.
Veja também: se interessam por essa releitura histórica e pelo balanço entre paisagem e intimidade, esta obra oferece um terreno fértil para debates sobre maternidade, memória e a origem do mito. Um filme que, como todo bom roteiro, nos força a perguntar o porquê das escolhas humanas e a reconhecer nelas o contorno do tempo.






















