Hamnet, dirigido por Chloé Zhao e baseado no romance de Maggie O’Farrell, chega com a elegância de quem prefere sussurrar um enigma do que gritá-lo. Jessie Buckley e Paul Mescal encarnam, respectivamente, a enigmática Agnes e o jovem William Shakespeare numa fábula sobre natureza, maternidade e o processo de criação. O filme acumula oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e melhor direção, e entrega uma leitura sensível do que pode ter alimentado o grande drama de Hamlet: o luto de um pai.
Se eu arriscasse uma aposta para o Oscar de melhor filme — mais por equilíbrio emocional do que por audácia crítica —, colocaria minha ficha em Hamnet. Não porque o considere a obra-prima absoluta da temporada (há filmes que me tocaram de modo mais fulminante), mas porque é aquele que devolve ao espectador uma sensação de fechamento e nutrição: um percurso que entrelaça Natureza, Feminilidade e Arte com um desfecho que parece polir as arestas do entendimento.
No centro do filme está Agnes — interpretada por Jessie Buckley — apresentada já na primeira cena como se nascesse da terra, libertando-se de raízes que podem ser proteção ou prisão. Logo em seguida, um falcão pousa em sua mão: uma imagem que parece mais um cartão-postal simbólico do século XVI do que uma tentativa histórica. Agnes não é apenas personagem; torna-se um arquétipo de vitalidade feminina, alguém que conhece os segredos do mundo natural, que desafia os papéis impostos pela sociedade (seria bruxa? seria cigana?) e que reivindica a própria liberdade.
Do outro lado, William (Paul Mescal) é um jovem professor de latim, contido e pressionado por um pai autoritário que trabalha com couro. Sua atração por Agnes nasce de um encontro entre mundos: o domesticado e o selvagem, o latim das aulas e o idioma não escrito da floresta. Primeiro conquista Agnes; depois ela conquista seu lugar na casa dos sogros, onde encontra na figura de Mary — vivida por Emily Watson — uma presença ambígua: nem exatamente inimiga, nem aliada óbvia.
Incentivado por Agnes, Will parte para Londres para seguir um talento que o conduzirá, no roteiro da história cultural, a tornar-se o nome que conhecemos: Shakespeare. Mas a decisão da diretora e da roteirista (a própria autora do livro colaborou com Zhao na adaptação) é deliberada: Hamnet não é um filme biográfico sobre o Bardo. A narrativa opta por permanecer em Stratford-upon-Avon, concentrando o olhar sobre Agnes, sobre as fronteiras da maternidade e, sobretudo, sobre o espaço do luto — o que será, três anos depois, uma semente para o drama de Hamlet.
Comparado com o romance, o filme assume um andamento mais linear — uma opção narrativa que privilegia a clareza emocional em detrimento da fluência temporal do livro. O resultado é uma obra que busca um balanço: preservar a aura folclórica e mítica de Agnes, ao mesmo tempo em que fornece ao espectador uma experiência de compreensão imediata.
Como observadora do zeitgeist, não consigo deixar de ver em Hamnet um espelho do nosso tempo: a forma como as perdas privadas se tornam matéria-prima para criações públicas, a semiótica do silêncio que antecede a fala artística, e o roteiro oculto que liga afeto e produção cultural. A nota final do crítico — e que compartilho por seu tino de leitura — é 7. Uma avaliação que reconhece feitos estéticos e emocionais, sem, no entanto, elevar o filme ao panteão das obras incontestáveis.
Em suma, Hamnet se instala como um elegante reframe do imaginário shakespeariano, onde a paisagem, a mulher e o luto não são apenas cenário, mas força motriz do enredo. Um filme que se experimenta como quem lê um poema antigo à luz de uma vela: reconhecendo as sombras, mas admirando a clareza do verso.






















